"A maioria dos médicos só vê e fala dos aspectos técnicos. Mas essa mulher precisa de alguém que a ouça, porque o mais difícil é lidar com o choque emocional de alguém que estava esperando uma vida, não a morte", afirma Rodrigues.
Do ponto de vista médico, é esperado que até 20% das gestações acabem em aborto espontâneo nos três primeiros meses. A maioria dos casos é provocada por alterações nos cromossomos, que causam defeitos no feto.
"Para o médico, é como se fosse uma "seleção natural", pode fazer parte da rotina. Mas não podemos desvalorizar o que a mãe está sentindo, banalizando o evento", diz o ginecologista Newton Eduardo Busso, secretário-geral da Sogesp (Associação de Obstetrícia e Ginecologia do Estado de São Paulo).
Marcia Rodrigues conta que, em sua pesquisa, os profissionais de saúde se mostraram despreparados para ajudar essa mulher. "Às vezes, não é preciso muito, só ouvir o que ela tem a dizer. Uma enfermeira bem formada pode fazer isso", afirma.
A psicóloga acredita que a formação de profissionais para o parto humanizado também ajuda a humanizar os procedimentos associados ao aborto espontâneo ou ao parto de natimortos.
DIGNIFICAR O LUTO.
A escritora portuguesa Maria Manuela Pontes, autora de "Maternidade Interrompida" (ed. Ágora), afirma que a sociedade não dignifica o luto da mulher que sofreu aborto espontâneo.
"Perder um bebê no útero é um dos piores lutos que existem. Para elaborá-lo, a mulher precisa falar do que está sentindo e ser ouvida por todos ao seu redor."
Para o psicanalista Roosevelt Cassorla, autor de "Da Morte" (ed. Papirus), é exagero afirmar que a sociedade desqualifica a dor e o luto dessas mulheres.
"Talvez apenas não valorize tanto, porque ainda não era um ser nascido, e o aborto espontâneo faz parte das possibilidades da gestação. A consequência é que a mãe se sente só, e para elaborar um luto é necessário compartilhar com outras pessoas."
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