FONTE: Elioenai Paes - iG São Paulo, TRIBUNA DA BAHIA.
Prática se tornou popular no Panamá; pessoas do
mundo todo visitam o país para fazer a polêmica cirurgia.
O mundo
já teve muitos exemplos das consequências ruins da vaidade excessiva. Quando
ela sobe para os olhos, no entanto, essa busca incessante pela beleza pode
cegar.
As
consequências de interferir em um local tão delicado do corpo humano podem ser
irreversíveis. É o que acontece com o implante ocular ou laser despigmentador
para mudar a cor dos olhos.
Nunca
autorizados pela Anvisa – mas disponível para qualquer pessoa no Panamá, por
exemplo - esses procedimentos são “uma loucura extremamente perigosa”, como
alerta o oftalmologista Rubens Belfort Junior, professor titular de
oftalmologia da Escola Paulista de Medicina, da Universidade Federal de São
Paulo (Unifesp).
“São
dois procedimentos totalmente sem base científica que, de repente, começaram a
serem comercializados em alguns países. Há uma preocupação grande de que eles
venham a se disseminar. Não há nenhum trabalho experimental sério que mostre
que esses implantes são seguros”, diz o médico.
A
técnica do implante foi desenvolvida no Panamá. Em busca de olhos verdes, azuis
ou mel, pessoas do mundo todo peregrinam até o país da América Central para
implantar um silicone embaixo da íris e exibir uma cor diferente de olho.
Sem sentido.
O
procedimento consiste em inserir uma lente de silicone atrás da córnea e na
frente da íris. “Imagine um relógio. O vidro é a córnea e o mostrador é a íris.
O implante fica entre os dois”, detalha o oftalmologista do Instituto Penido
Burnier, Leôncio Queiroz Neto.
Belfort
Junior explica que o procedimento cirúrgico em si é simples. “É mais simples do
que operar uma catarata. E é rápido. Mas muito perigoso. O implante é colocado
na frente da íris e o olho não aceita isso. Ficar com a íris mexendo por detrás
desse implante é perigoso”, detalha.
Para os
profissionais que estudam meios de tratar e preservar a visão dos pacientes,
uma cirurgia arriscada, sem comprovação científica e apenas por estética não
faz sentido.
No caso
do laser, Queiroz Neto explica que o procedimento foi desenvolvido nos Estados
Unidos. “Consiste em retirar da íris a melanina, substância responsável pela
cor escura dos olhos, para que a pessoa fique com olhos azuis, correspondentes
à íris despigmentada”, explica ele.
O
problema, segundo o médico, é que essa melanina se desloca para um canal
interno do olho, podendo provocar o glaucoma de ângulo fechado, que se
caracteriza pela dor súbita nos olhos, náuseas e dor de cabeça.
“Sinalizam
uma emergência oftalmológica”, diz ele. Além disso, pode causar o glaucoma
pigmentar, que é o aumento da pressão intraocular.
Lentes de contato.
A
oftalmologista do Hospital São Vicente de Paulo, no Rio de Janeiro, Renata
Rezende, conta que atendeu a um paciente com problemas oculares depois de um
implante para mudar a cor do olho. Segundo ela, o paciente havia viajado para o
Panamá para fazer o procedimento.
“Um dos
olhos dele ficou com um campo visual tubular, como se ele estivesse olhando
através de uma fechadura de porta. Vai perdendo o campo da periferia para o
centro, e como ele demorou para remover o transplante, teve glaucoma severo”,
alerta.
“Isso é
uma loucura!”, ressalta a especialista, que também é membro da Academia
Americana de Oftalmologia, lembrando que a visão danificada pelo glaucoma nunca
mais é revertida.
Quando
há complicações, como glaucoma, opacidade da córnea e catarata, não há nenhuma
garantia que o tratamento devolverá a visão como antes da cirurgia.
“Pode
acontecer cegueira irreversível por causa do glaucoma, cegueira por causa de
problemas na córnea, que teriam de ser corrigidos por transplante de córnea – e
também catarata”, explica o professor da Escola Paulista de Medicina.
Para
quem tem problemas em aceitar a cor do olho com que nasceu, a saída mais segura
é usar lentes de contato coloridas. É necessário saber, porém, que o
acompanhamento com oftalmologista é essencial. “Sempre existe risco, mas para a
lente de contato é um risco pequeno e conhecido”, completa Belfort Junior.

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