Opinar sobre o corpo do outro é uma prática antiga, embora tenha ganhado dimensões
maiores com as redes sociais. O hábito contribui para a baixa autoestima feminina: em meios às críticas, mulheres internalizam a
ideia de que não se enquadram no padrão de beleza enaltecido pela sociedade, o que pode causar sofrimento.
Em menor escala, o corpo masculino também é comentado — e vira e mexe se torna motivo de piada, principalmente quando o assunto é o tamanho do
pênis (se é pequeno, principalmente). O problema? Mais do que ferir o ego
masculino, a ridicularização contribui para a construção de uma cultura
conhecida como masculinidade tóxica — que, no fim das contas, acaba sendo nociva para a
própria mulher.
Entenda:
Status de sucesso.
"O tamanho do pênis é um mito criado e mantido pelos humanos há
muito tempo. Hoje em dia, a grandeza é relacionada à ideia de um bom desempenho
sexual, mas não só. Ter um órgão considerado maior do que a média remete também
a uma imagem de poder", explica Rosely Salino, psicóloga com
especialização em sexualidade humana. De acordo com a profissional, o
"superdotado" é visto pelos demais como um privilegiado na conquista.
"É importante enfatizar que a média do tamanho do órgão entre os
brasileiros é de 13 cm em ereção", relembra Rosely. O número, é claro,
varia para mais ou para menos, mas não é garantia de sucesso na cama. "Nem
sempre um superpênis é bem usado. Outros fatores, como o emocional, costumam
importar mais nos momentos de intimidade do que somente a biologia. Quando as
coisas não vão bem na vida de um homem, por exemplo, eles podem apresentar
dificuldade em iniciar e manter uma ereção", diz.
Masculinidade tóxica:
ruim pra todo mundo.
"Homens e mulheres são educados de maneira distinta. Enquanto
meninas têm liberdade para chorar e demonstrar emoções, os garotos são
ensinados, desde cedo, a engolir o choro. O esperado é que eles sejam firmes,
durões", relembra Rosely. Este e outros hábitos alimentam uma cultura que
recebe o nome de masculinidade tóxica. Trata-se de autoafirmação masculina que
pode descambar em agressividade, uma vez que eles ficam mais fechados
emocionalmente. Por isso, reforçar a supervalorização do tamanho do pênis,
indiretamente, contribui para um sistema que oprime as mulheres.
"Além disso, ter o órgão ridicularizado ou humilhado acaba se
tornando uma preocupação masculina, o que não é saudável do ponto de vista
psicológico", aponta a psicóloga. E mais: outros comportamentos ligados ao
desempenho sexual também são vendidos como "naturais", quando na
verdade não são.
Léo Hwan, comunicador especializado em técnicas comportamentais e
parceiro do site de relacionamentos Badoo, exemplifica: "Muitas vezes, a
sociedade vende a ideia de que o homem precisa estar sempre disposto a transar.
Esta imagem não corresponde à realidade: trata-se de um papel de gênero imposto
pela sociedade. Assim como existem os papeis de gênero masculinos, existem os
femininos. Eles engessam o comportamento e são cenários de fundo de muitos
tipos de violência. Mais do que não beneficiar os homens, eles são nocivos
também para as mulheres, pois servem de base para a misoginia e o
machismo", argumenta.

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