É cada vez mais comum ouvir casos de bebês
alérgicos à proteína do leite. Mas, até chegar a esse diagnóstico, os pequenos
sofrem – e também as mães. A jornalista Débora Lublinski viveu o problema
na pele e conta aqui suas descobertas:
Não sei quem chorava mais, se era ela ou eu.
Aquela cena de propaganda mostrando um bebê sendo serenamente amamentado não
aconteceu comigo. Marina, minha filha, mamava exatos três minutos no peito e desatava
a chorar. Pior: berrava, se torcia, me arranhava! Sem sucesso, eu parava e
tentava acalmá-la. Quinze minutos mais tarde, colocava-a no outro seio. Mais um
tempinho mamando e o drama se repetia. Uma hora depois, minha bebezinha pegava
no sono, exausta. Imagine isso se repetindo a cada mamada...
Nas primeiras semanas, dei plantão no pediatra
– amamentava no consultório para ele observar os sintomas. Fome não era.
Eu tinha bastante leite. Suspeitando de alergia, o médico recomendou que eu
fizesse uma dieta cortando leite e derivados do cardápio. Aí, descobri que a
proteína dos laticínios que eu consumia podia passar para o leite materno e,
consequentemente, para o bebê. "O organismo do lactente não digere essas
proteínas, que seu sistema imunológico, também imaturo, interpreta como
agressoras, disparando anticorpos contra elas", explica Luiz H. Hercowitz,
pediatra gastroenterologista do Hospital Israelita Albert Einstein, em São
Paulo.
"Essa reação de hipersensibilidade gera
sintomas como náuseas, fezes amolecidas, gases, constipação, regurgitação
intensa, cólica e distensão abdominal", acrescenta Antonio C. Pastorino,
assistente doutor da unidade de alergia e pneumologia do Departamento de
Pediatria da Universidade de São Paulo.
Nesse início, a grande dificuldade (das mães e
dos médicos) é diferenciar esse quadro de desconforto de outros dois problemas
típicos da imaturidade digestiva do recém-nascido: a cólica e o refluxo. Apesar
dos sintomas semelhantes, a alergia torna-se a principal suspeita quando o
choro é insistente, as crises não cessam com medicações, chegam a durar mais de
três horas seguidas e persistem após o terceiro mês de vida.
Investigação apurada.
Durante a gravidez, até nos preparamos para
sobreviver às madrugadas acordadas e enfrentar com tranquilidade a fase das
cólicas. Mas ninguém imagina que o filho vai sofrer com alergia alimentar. Só
depois da minha experiência descobri muitos casos parecidos ou bem mais graves
do que o da Marina. Experimente digitar alergia alimentar no Google e você vai
encontrar depoimentos de arrepiar os cabelos.
Minha mãe diz que é doença moderna, mas nenhuma
estatística indica que o problema aumentou. "Um estudo americano de 2009
estima que a alergia alimentar afeta uma em cada 20 crianças. A diferença em
relação ao passado é que a classe médica está acertando mais no
diagnóstico", afirma Victor Nudelman, pediatra do Hospital Israelita
Albert Einstein.
Mesmo com mais luz sobre o tema, diagnosticar o
problema não é nada simples. Com menos de 2 meses, minha pituquinha teve que
fazer exame de sangue, de urina, de fezes e ultrassom abdominal. Só de lembrar
minhas pernas ficam bambas... A questão é que, mesmo assim, o resultado pode
ser "inespecífico" (no jargão da medicina, é quando os exames parecem
normais), mas o problema continua ali.
Nos casos mais graves, o bebê não ganha peso e o
cocô apresenta sangue - aparente ou oculto, detectado apenas com a análise das
fezes. Pode haver vômitos após as mamadas, refluxo, uma úlcera no intestino ou
uma inflamação no esôfago, revelada por meio de uma endoscopia. "A
avaliação precisa ser criteriosa e levar em conta, inclusive, se há casos na
família, o que aumenta a probabilidade", explica Mauro Batista de Morais,
livre-docente de gastropediatria da Universidade Federal de São Paulo. Além
disso, crianças com alergia alimentar tendem a apresentar também alergias de
pele, como dermatite atópica, e problemas respiratórios, como rinite e asma. É
o que os especialistas chamam de marcha alérgica, e analisar todos esses
fatores ajuda a fechar o diagnóstico.
O teste tira dúvidas.
A prova dos nove é feita pela exclusão temporária
do alimento suspeito, seja o leite materno, a fórmula ou outro qualquer.
"Se o bebê se recupera e, depois que o alimento é reintroduzido, volta a
apresentar os sintomas, o quadro de alergia fica claro", diz Nudelman. O
problema desse método é que muitas mães (eu, inclusive!), após a melhora, não
têm coragem de voltar a oferecer o que causava tanto desconforto ao filhote.
Essa resistência dificulta que se coloque em
prática uma nova hipótese levantada no Congresso Mundial de Alergia, no final
de 2009, quando um estudo finlandês que acompanhou 994 crianças por cinco anos
comprovou a existência de uma janela de oportunidade imunológica.
"Acredita-se que, entre o quarto e o sexto mês de vida, o organismo se
torne mais tolerante. E a liberação de pequenas quantidades dos alimentos
restringidos nessa fase poderia ajudar o bebê a superar a doença
precocemente", explica Pastorino.
Coerente com essa teoria, a Academia Americana de
Pediatria já antecipa a prescrição de alguns alimentos aos bebês, mas por aqui
a recomendação é vista com cautela pelos médicos que consultei. "Não há
necessidade de atrasar a introdução de alimentos, mas também não vejo motivo
para adiantar, pois o assunto ainda está em discussão", diz Ana P.
Moschione, diretora da Associação Brasileira de Alergia e Imunopatologia.
Seja como for, no caso de suspeita de alergia ao
leite, entram em cena as fórmulas infantis especiais. Até tentei, por um tempo,
manter a amamentação seguindo uma dieta extremamente restritiva (e põe
restritiva aí: muita coisa que a gente nem imagina leva leite, como bolachas
salgadas e empanados). É uma saída, mas no caso dela os sintomas continuaram.
Assim, eu e a Marina fomos apresentadas às fórmulas hipoalergênicas.
Leite que
vale ouro.
Nem sabia que existiam tantas variações, mas
foram testados diversos tipos de leite para encontrar aquele que aliviaria o
desconforto dela. "Cerca de 90% dos bebês alérgicos ao leite se beneficiam
com a fórmula à base de proteína extensamente hidrolisada, na qual a molécula é
quebrada, facilitando a digestão e a absorção. Os 10% restantes precisam
consumir um leite ainda mais purificado", diz Morais.
O problema é o preço da lata desses pozinhos
milagrosos: em torno de 100 reais a de proteína hidrolisada e de mais de 300
reais a de aminoácidos livres. A Marina consome uma embalagem a cada três
dias... Faça a conta! Com a orientação do pediatra, entramos para um programa
do governo que fornece gratuitamente esse tipo de alimento especial para os
bebês - e que funciona.


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