A
população mundial está ganhando peso rapidamente, principalmente crianças e
adolescentes.
Segundo
estudo publicado na terça-feira (11) na revista científica The Lancet, a taxa
global de obesidade em crianças disparou em 41 anos. Por outro lado, o índice
de baixo peso caiu.
O
Brasil segue na mesma direção. Entidades de saúde alertam que, se não houver
uma mudança de rumo, o país, assim como a população global, enfrentará um forte
crescimento de doenças associadas à obesidade, como diabetes, pressão arterial
elevada e doenças de fígado.
De
acordo com o estudo divulgado na Lancet, a prevalência de obesidade global em
meninas saltou de 0,7% em 1975 para 5,6% em 2016. Em meninos, a alta foi ainda
maior: saiu de apenas 0,9% em 1975 para 7,8% em 2016. Como consequência, 124
milhões de crianças e adolescentes entre 5 e 19 anos ao redor do mundo estavam
obesos em 2016.
Os
pesquisadores do estudo, coordenado pela universidade inglesa Imperial College
London e pela Organização Mundial da Saúde (OMS), alertam que, se a obesidade
continuar crescendo nos níveis das últimas décadas, em cinco anos o mundo terá
mais crianças e adolescentes obesos do que com baixo peso.
Sem
uma mudança de hábitos, em menos de uma década a obesidade pode atingir 11,3
milhões de crianças no Brasil, de acordo com um alerta divulgado pela Federação
Mundial de Obesidade.
Vilões.
PA
Hambúrgueres e batata frita Produtos ricos em gordura estão entre os vilões da
obesidade 1.
A
principal razão para a alta de peso na população mais jovem é o consumo de
alimentos ricos em açúcar e gordura, principalmente os industrializados.
"Essas
tendências preocupantes refletem o impacto da publicidade da indústria
alimentícia e das políticas públicas ao redor do globo, com alimentos saudáveis
e nutritivos se tornando algo muito caro para famílias e comunidades
pobres", afirmou em um comunicado a pesquisadora que liderou o estudo
publicando na Lancet, Majid Ezzati, da Escola de Saúde da Imperial College
London.
No
Brasil a tendência é semelhante. Nas últimas quatro décadas, o índice de obesidade
entre meninos saltou de 0,93% para 12,7%. Entre meninas, o crescimento foi
menor, mas ainda assim elevado: passou de 1,01% em 1975 para 9,37% no ano
passado, de acordo com dados compilados pela rede de cientistas de saúde NCD
Risk Factor Collaboration, utilizados na pesquisa.
"O
estudo mostra que, em 40 anos, o mundo passou por uma transição nutricional, de
saída da desnutrição e de entrada na obesidade", afirma Maria Edna de
Melo, presidente do Departamento de Obesidade da Sociedade Brasileira de Endocrinologia
e Metabologia (SBEM).
"A
situação de Brasil é semelhante ao que o estudo aponta - vivemos em um ambiente
em que o número de crianças abaixo do peso não mais preocupa. O que mais
preocupa é o número de crianças com excesso de peso e de obesidade",
avalia.
Questão de status.
PA
Balança Obesidade pode levar a uma série de doenças 1.
Assim
como nos outros países pesquisados, a elevação dos níveis de obesidade no
Brasil está relacionada ao maior consumo de produtos industrializados, ricos em
açúcar e gorduras.
No
país, porém, o consumo não estaria relacionado apenas a uma disparidade de
preços entre alimentos saudáveis (normalmente, mais caros) e industrializados
(mais baratos), mas também por uma questão de status associada ao consumo
desses itens.
"Hoje
temos as famílias com disponibilidade grande de alimentos industrializados e
isso, para algumas delas, é chique. É como se fosse uma afirmação social poder
consumir produtos industrializados. Esses produtos são saborosos, mas ricos em
sal, gordura e açúcares, e as pessoas não têm a real dimensão do quão nocivos
eles são", alerta Melo.
De
acordo com a Federação Mundial de Obesidade, o crescente nível de obesidade
entre crianças e adultos coloca a saúde desse público "em perigo
imediato".
Estimativa
da organização aponta que, em 2025, 150 mil crianças e jovens no Brasil
desenvolverão diabetes tipo 2, enquanto 1 milhão terão pressão arterial
elevada. Outro dado alarmante é o número de crianças e jovens brasileiros que
sofrerão com gordura no fígado - cerca de 1,4 milhão, segundo a entidade.
"O
crescimento dos níveis de obesidade é muito preocupante porque não temos um
sistema de saúde preparado para lidar com a obesidade e com os problemas que
ela gera", aponta Melo.
Como reduzir.
A
médica afirma que muitas vezes o indivíduo não compreende o que é a obesidade e
não imagina que seus filhos possam sofrer com o problema.
"As
pessoas acham que uma pessoa só tem obesidade quando é a obesidade grave. Falta
uma identificação correta da doença também pelos profissionais da saúde",
aponta.
Aumentar
o aleitamento materno na infância e limitar o consumo de alimentos ricos em
açúcar e gordura, como refrigerantes, biscoitos e fast food também
é essencial para evitar que crianças se tornem obesas e para reduzir os níveis atuais
da doença, alerta a Federação Mundial de Obesidade.
Também
é importante encorajar os jovens a praticar exercícios físicos - de acordo com
a entidade, 80% dos jovens não atingem os níveis recomendados de atividade.
Reduzir
a presença da doença na população significa mudar hábitos, conceitos e retomar
algumas lições. "Tem que voltar a comer arroz com feijão. Pelo menos uma
vez por dia", afirma Melo. Para as crianças pequenas que estão ainda
aprendendo a comer, é importante que a família não consuma produtos que são
proibidos para a criança. "Os pais, antes de dizer não, precisam dar o
exemplo."


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