sábado, 28 de agosto de 2010

QUANDO A VIDA VIRA FUMAÇA...

FONTE: Rodrigo Lago, TRIBUNA DA BAHIA.
Num almoço festivo, desses realizados em clubes sociais, quatro pessoas estão sentadas à mesa. Após acabarem a refeição, uma delas abre a bolsa e, naturalmente, acende um cigarro.
Logo em seguida, uma das pessoas que também compunham o local – um médico influente e respeitadíssimo na Bahia e no exterior – pergunta: “Mas a senhora, uma moça tão bonita, matando-se dessa forma?” E a mulher retruca, rapidamente, dizendo que as informações sobre as moléstias do cigarro são divergentes. “Um médico amigo meu disse que o fumo não faz mal”, proferiu.
Esta foi uma cena real e nada incomum há 30 anos, quando as pessoas – médicos, inclusive – não tinham pleno conhecimento sobre os verdadeiros desastres que são os problemas causados pelo cigarro, como o câncer do pulmão, da boca, da garganta, do esôfago, da laringe e da bexiga. A história foi contada à reportagem pelo empresário Joaci Góes, que, na década de 80, também era diretor presidente desta Tribuna.
“O médico que chamou a atenção da moça era o nosso saudoso José Silveira, especialista em tisiologia, que teve suas ideias repercutidas pelo mundo. Era um homem muito inteligente, estudioso e sabia com muita propriedade o que estava dizendo”, conta.
Joaci Góes, no mesmo período da cena, em 1980, era responsável por organizar os eventos do Rotary Clube e, por isso, teve a ideia de convidar o professor Silveira para uma palestra sobre os males do cigarro.
“Foi um sucesso obter todas aquelas preciosas informações. Desde aquela época, ele já propunha essas restrições atuais ao fumo. Lembro-me dele sabiamente falar durante a palestra que Deus criou o homem com os pelos no nariz para justamente filtrar as impurezas antes de o ar ir para os pulmões. Como podia o homem enrolar num papel milhares de impurezas e fumar pela boca, ele perguntava.
Era melhor, então, fumar pelo nariz. Naquele mesmo dia, fiz um comprometimento público de que o jornal Tribuna da Bahia não mais aceitaria nenhum tipo de propaganda relacionada ao cigarro”, contou.
Foi então que, no dia 23 de maio de 1980, a Tribuna lançou, de forma pioneira e jamais vista antes no mundo, a campanha contra o fumo. Dizia o editorial: “A Tribuna da Bahia assume a partir de hoje a dianteira da campanha anti-tabagismo. E o faz com a convicção de que está contribuindo para a conscientização da coletividade e de cada cidadão em particular no tocante a um dos males que corroem insidiosamente a saúde. As razões que ditam tal atitude são impessoais, sem vinculação a interesses menores. E uma das mais relevantes esta intimamente radicada nos ensinamentos da ciência”.
Os redatores do jornal, por sua vez, também deram exemplo. “Naquela época, a gente entrava na redação e não via o rosto de quem estava ao fundo, tanta era a densidade da fumaça de cigarro”, conta o jornalista Jolivaldo Freitas. A equipe de jornalismo, em consonância com a direção do jornal, iniciou uma campanha nacional de combate ao tabagismo, que dura até hoje. “E fomos o primeiro jornal a criar um ‘fumódromo’ na redação, que era até chique, com ar-condicionado, exaustor e até cafezinho”, acrescentou.
“Abrimos mão de um anunciante expressivo e também de todos os produtos que viessem a fomentar o uso do cigarro. Fomos o primeiro jornal no mundo a realizar editoriais, campanhas publicitárias e diversas reportagens contra o fumo”, lembra o atual diretor presidente da Tribuna, Walter Pinheiro. Inacreditável, porém, conceber que a mesma cena contada no início da reportagem pudesse ocorrer nos dias atuais.
Primeiro, porque a mulher estaria proibida de acender o tabaco em local fechado e público e, segundo, pelo fato de que deve rasgar o registro do Conselho Regional de Medicina o médico que vier, por ventura, falar que o cigarro não causa graves doenças para a saúde de qualquer indivíduo.
DIA MUNDIAL DO COMBATE.
O dia 29 de agosto foi escolhido como o Dia Mundial de Combate ao Fumo. Nesta data, toda sociedade terá a oportunidade de refletir sobre os malefícios da nicotina e exercer medidas de prevenção. De acordo com a pneumologista Sylvia Machado, da equipe de prevenção do Núcleo de Oncologia da Bahia, setenta por cento das pessoas que deixam de fumar voltam dentro de um ano, porque não mudaram nada no seu estilo de vida, “como começar a praticar exercícios”.
Este é um problema mundial .Conforme a história conta a nicotina (substância estimulante) foi descoberta na América em 1492, pelos europeus, que em contato com o tabaco, originário deste continente, era utilizado pelos índios que ali habitavam. Suas folhas eram queimadas em longos cachimbos, sendo então fumadas para afastar os maus espíritos e invocar os deuses.
“Os fumantes não consideram o cigarro uma droga, mas se o cigarro contém acetona, que é um removedor de esmalte, contém naftalina, eficiente para matar baratas; fósforo p4/p6, eficiente para matar rato; amônia, que usamos pra desinfetar privadas; nicotina, que produz a dependência, entre outros produtos, então não sei o que é droga.
Devia ser proibido como a maconha”, disse a publicitária Carol Rodrigues, que luta diariamente com a família e amigos para evitar o uso do cigarro entre seus entes queridos. “Sou chata mesmo, de tanto reclamar, as pessoas já nem acendem cigarro perto de mim. Sou a chata, mas ao menos é menos um, dois, três cigarros que eles fumam quando estão comigo”.
PRINCIPAIS MALEFÍCIOS DO CIGARRO.
As doenças cardiovasculares e o câncer são as principais causas de morte por doença no Brasil, sendo que o câncer de pulmão é a primeira causa de morte por câncer. Apenas 6,7% dos casos de câncer de pulmão não está relacionado ao cigarro, pois 90% ocorre em fumantes, e 3,3% em fumantes passivos (pessoas que apenas convivem com a fumaça do cigarro).
Na maioria das vezes, o cigarro leva à morte por doença coronariana (obstrução das artérias do coração), bronquite e enfisema, câncer no pulmão, outros tipos de câncer (de boca, laringe, faringe, esôfago, pâncreas, rim, bexiga e colo de útero), e doenças vasculares (entre elas, derrame cerebral e obstrução na circulação das pernas).
Mesmo não levando à morte, este hábito pode causar impotência sexual no homem, complicações maternas e fetais na gravidez, úlcera do aparelho digestivo, infecções respiratórias, e trombose vascular; podendo culminar com amputação de extremidades e membros inferiores.
AVANÇOS NA LEGISLAÇÃO – No Brasil progressivamente surgem leis em nível estadual e municipal preservando os direitos dos não-fumantes. A propaganda e publicidade dos derivados do tabaco em revistas, jornais, televisão, rádio e outdoors está proibida, assim como o patrocínio de eventos esportivos nacionais e culturais pela indústria tabaqueira; o uso desses produtos nos veículos de transporte coletivo; a venda por via postal; a distribuição de amostra ou brinde; a propaganda por meio eletrônico, inclusive Internet; e a comercialização em estabelecimentos de ensino e de saúde.
Também foi determinada a veiculação de advertências sobre os malefícios do tabagismo nas embalagens e qualquer tipo de propaganda sobre o produto; além da proibição do fumo em ambientes públicos fechados, exceto em áreas reservadas aos fumantes.

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