FONTE: Consuelo Pondé de Sena, TRIBUNA DA BAHIA.
A moda dos cabelos curtos, na década de 1920, foi revolucionária e, de certa forma, identificada como uma “perigosa conquista das mulheres”. Vale lembrar que a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) provocou sensíveis alterações no modo de vida e no comportamento da época. Era o tempo das “melindrosas”, com seu corte de cabelo Chanel e o atraente “pega rapaz”, que tanto enfeitava a cabecinha das damas de antanho.
Não dispensavam as senhoras e senhoritas daquela época os colares de pérolas de muitas voltas e as flores, que lhes ornavam os vestidos.
Pareceu, aos olhos dos cavalheiros daquele tempo, todos machistas, uma insubordinação e uma prova de independência do “sexo frágil”. Outros senhores vislumbraram naquela moda estranha uma “masculinização” da figura feminina.
Na mesma ocasião, as saias subiram, mas eram saias comportadas, marcadas para abaixo dos joelhos. Antes desse período, só de ver os “gorgomilos” os homens se entusiasmavam, sendo os decotes condenados por todos eles, salvo quando usados por mulheres estranhas ao seu mundo familiar.
Era elegante e refinado, para as mulheres da classe média alta e da elite, o uso de pequenos chapéus ou outros maiores, de aba larga, a depender do formato do rosto da usuária, ou quem sabe, do custo desse elegante complemento.
Curiosamente, apesar das conquistas obtidas, dos “espaços” alcançados na sociedade competitiva, do direito à educação superior e, mais tarde, dos cursos de pós-graduação, atualmente, as mulheres estão “aprisionadas” aos cabelos longos, para cujo trato despendem muito tempo.
Na Bahia, pontificava, nos idos de 1927, Alexandrina Ramalho, de airoso perfil, soprano ligeiro, no mais primoroso gênero, como a descreveu Carlos Chiacchio, que dela também afirma: “Leve, gentil, desinteressada de gloriolas, a senhorinha Alexandrina Ramalho, como ninguém na Bahia de hoje, é capaz de erguer às mais puras expressões do sentimento estético musical, a excepcional voz de soprano ligeiro, que a natureza lhe deu e que nos cumpre proclamar, alto, como uma fortuna do seu nome e uma glória da Bahia”.
Havia na Cidade do Salvador, nos idos de 1927, uma forte reação às tentativas libertadoras das mulheres. De um texto assinado por GelFar, que não outro senão dr. Gelásio Farias, encontro essa pérola: “A chamada emancipação da mulher, por ela aos quatro ventos apregoada e tão ardentemente pretendida, acarreta-lhe responsabilidades incalculáveis, contra as quais a situação invejável de wife of man salutarmente a protege”.
Em outro trecho do mesmo artigo, arremata o querido mestre de latim: “Ora, o feminismo radical, com o último apêndice do sufragismo, extingue de todo e de vez, esse privilégio da mulher, dando-lhe as mesmas responsabilidades do homem, de quem vai ser um émulo, um competidor, um verdadeiro homem de saias”.
E, acentuando o exaltado “machismo” assim conclui seu texto: “Que pena, porém! Agora mesmo, quem ler os resultados de exames da Escola Normal verá - não foram aprovados (em vez de foram reprovadas)”....Por que semelhante eufemismo? Por serem eufemismo? Por serem exames....de mulher !”. Sem comentário.
Observo nas fotografias de 1928 que algumas mulheres já se apresentavam sem chapéus, embora mantivessem o uso de meias claras e lustrosas e, como era moda, cabelos curtos. Que dizer das fotos das senhorinhas em trajes de banho e fantasiadas em festas realizadas no Parque de Nazareth, em 1929? No mesmo ano, “A Luva” divulga, no dia 7 de dezembro, um artigo intitulado “Saias e Pernas”, no qual está mencionado que as saias descem.
“Descem assustadoramente num delírio de cobrir coxas e pernas.
Tudo o que andava desnudo, inocentemente à vela, se toma de pudores repentinos e frios siberianos e entra de ocultar-se e envolver-se em panos, como criança de cueiros”.
De 1929 para 2012 são decorridos 83 anos. Quanta coisa virou de cabeça para baixo! É só conferir.
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