sábado, 18 de agosto de 2012

COMISSÃO INVESTIGA SUSPEITA DE ASSASSINATO DE ANÍSIO TEIXEIRA...

FONTE: TRIBUNA DA BAHIA.
  
O educador baiano Anísio Teixeira morreu, em 1971, após ter caído acidentalmente no poço do elevador de serviço do prédio onde morava o filólogo Aurélio Buarque de Holanda, no Rio de Janeiro. Esta foi a versão oficial para a causa de sua morte, que, desde então, foi cercada de circunstâncias obscuras.

Quarenta e um anos depois, a Comissão de Memória e Verdade da Universidade de Brasília (UnB) decidiu investigar a suspeita de que Anísio Teixeira teria sido assassinado por agentes do Estado, após ser sequestrado e levado para uma unidade da Aeronáutica, quando se dirigia à casa de Aurélio Buarque de Holanda.

De acordo com a nova versão, Anísio teria sofrido tortura, uma vez que apresentava vários ossos quebrados, traumatismo na cabeça e no ombro, em decorrência de pancadas com um objeto de forma cilíndrica, possivelmente feito de madeira.

Tal versão tornou-se pública na semana passada, em Brasília, no momento em que a comissão foi instalada. Durante a cerimônia, João Augusto de Lima Rocha, professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e biógrafo de Anísio Teixeira, anunciou que tinha o conhecimento do assassinato conforme lhe foi confidenciado, em relatos diferentes, pelo ex-governador da Bahia Luís Viana Filho e pelo professor e crítico literário Afrânio Coutinho.

A mesma suspeita é compartilhada pelos familiares, que sempre manifestaram dúvidas quanto à versão oficial, mas temiam levar adiante uma investigação aprofundada. Na opinião do professor João Augusto, a família tinha medo de sofrer retaliações.

“Nós, na verdade, não víamos clima nem maior mobilização para isso. Por isso, nos mantivemos distantes. Na época, tentamos clarear os fatos, mas as coisas tomaram o caminho de querer culpar o mordomo, aí desistimos de prosseguir”, disse o médico psiquiatra Carlos Antônio Teixeira, terceiro filho de Anísio Teixeira, ao ser entrevistado pela Agência Brasil.

“Anísio Teixeira era alguém que incomodava. Ele foi cassado [depois do golpe militar de 1964], mas não tinha posições de esquerda explícita. Tinha, porém, projetos e uma forma de pensar que certamente não agradava o regime”, afirma o historiador José Otávio Nogueira Guimarães, da UnB.

Relatos reforçam versão de assassinato

De acordo com o biógrafo João Augusto, quem primeiro lhe confidenciou a versão de assassinato foi Luís Viana Filho, que, na ocasião, em dezembro de 1988, escrevia o livro “Anísio Teixeira: a Polêmica da Educação”. Viana apoiou o golpe e era próximo do marechal Castello Branco, primeiro presidente do regime militar. “Ele teve informação de que Anísio não tinha morrido e estava detido em instalações da Aeronáutica no Rio”, disse João Augusto.

O segundo depoimento lhe foi dado por Afrânio Coutinho, em março de 1989, na casa e na presença de James Amado, irmão de Jorge Amado, e da esposa deste, Luiza Ramos, filha de Graciliano Ramos.

Afrânio lhe contou que presenciou a necrópsia de Anísio Teixeira e, como quase todos os ossos estavam quebrados, ele não admitia a hipótese de queda. De acordo com o relato de Afrânio Coutinho, a quem Anísio tinha dito que estava sofrendo ameaças por telefone, este teria sido sequestrado, quando se dirigia à casa de Aurélio Buarque, e submetido à tortura.

Carlos Antônio Teixeira conta que, no momento do suposto sequestro, Anísio tinha em sua pasta um texto que desapareceu. Era um texto do Partido Comunista Brasileiro, que Carlos, que era militante do PCB, havia dado ao pai.

“Era um documento crítico. Falava da ditadura, não falava das pessoas, mas das perspectivas próximas e imediatas”, disse ele. A pasta e outros documentos de Anísio Teixeira foram devolvidos à família.

A necropsia de Anísio Teixeira também foi testemunhada por Diolindo Couto (neurologista), Domingos de Paola (professor titular de anatomia patológica) e Francisco Duarte Guimarães (anatomopatologista do Hospital dos Servidores). Todos os três eram médicos e amigos de Anísio. Assim como Afrânio Coutinho e Luís Viana Filho, eles também já morreram.

A Comissão de Memória e Verdade da UnB deverá fazer a primeira reunião de trabalho na próxima semana e terá acesso ao acervo do Arquivo Nacional. Além disso, receberá apoio da Comissão da Verdade do governo federal, a qual deverá encaminhar o relatório final.

Segundo matéria publicada pela Agência Brasil, o Ministério da Defesa informou que não se manifestará sobre o assunto e que o caso deve ser tratado no âmbito da Comissão da Verdade.

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