Se você não sai de casa sem salto alto, provavelmente já ouviu alguém
dizer que um dia sua coluna vai pagar o preço. Mas isso não é uma regra.
Enquanto há mulheres que vivem se equilibrando em saltos agulha sem tirar o
sorriso do rosto, outras só sobem em um de vez em quando e não aguentam de dor nas costas. Qual a explicação para isso?
Por que salto alto não
é culpado pela dor.
Embora esse tipo de sapato tenha ficado conhecido como inimigo da coluna,
ainda não há comprovação científica de que ele gere problemas na articulação.
Muitas vezes, a lesão nas costas é causada por outros fatores, porém, o
incômodo só aparece quando você usa o calçado, pois o sapato gera um impacto na
região lombar (e em muitas outras partes do corpo), o que acaba agravando o
problema já existente.
Entre os fatores que podem causar lesões lombares --que são agravadas
pelo salto -- estão a própria anatomia da corpo, desequilíbrio e desvios
posturais (como hiperlodose e escoliose), falta de alongamento e fortalecimento
muscular (devido ao sedentarismo), tabagismo, sobrepeso e até excesso de
exercícios físicos.
Sapato altera o
movimento.
Uma coisa é fato: ao caminhar equilibrando-se no salto há uma
alteração na biomecânica do movimento. Com isso, é comum acabar compensando o
desequilíbrio e sobrecarregando outras partes do corpo, como tornozelos, calcanhares,
joelhos e quadril, além de músculos e tendões das pernas.
Em um estudo recente publicado no European Spine Journal, pesquisadores
observaram que, enquanto algumas participantes que usavam salto alto com
frequência sofreram desconforto nas extremidades inferiores (lombar e joelhos), outras tiveram um aumento da lordose cervical (curvatura acentuada no
pescoço) para se adaptar ao deslocamento do centro de gravidade do corpo
imposto pela altura do sapato. De acordo com os cientistas, isso explicaria os
diferentes padrões de dor (no pescoço, na coluna lombar e nos joelhos) sentida
por quem anda bastante de salto alto.
Que outras partes do
corpo podem ser prejudicadas?
Os pés também podem sofrer bastante. Caminhando de salto alto, é quase
inevitável depositar o peso do corpo na parte da frente do pé (antepé), ficando
em flexão plantar (na ponta do pé). Isso resulta em pressão demais em cima dos
metatarsos (ossos longos localizados antes dos dedos), o que pode acabar
mudando a posição natural desses ossos, assim como o ângulo dos tornozelos, que
ficam instáveis.
Essa modificação da pisada pode desencadear diferentes danos ao pé. Um
dos mais comuns é a metatarsalgia, dor localizada na região dianteira do
membro. Dor nas pernas, inflamação nos joelhos, tendinite patelar e até
alterações degenerativas como a artrose também podem acontecer.
Outra consequência comum de quem passa os dias em cima de saltos altos é
o encurtamento dos músculos gastrocnêmio e sóleo (da panturrilha) e dos posteriores
(parte de trás) da coxa, além da sobrecarga nos tendões que os acompanham.
Resultado: ao andar descalça ou com sapatos rasteiros, o que obriga a extensão
dessas musculaturas, o incômodo costuma ser enorme. Neste momento, podem
aparecer dores da região lombar aos calcanhares.
Qual é o salto ideal?
Abolir totalmente o salto alto não é a solução para evitar dores e
problemas no esqueleto. Até porque rasteirinhas e sapatilhas não oferecem apoio
aos calcanhares, forçam os joelhos, podem piorar a dor lombar e causar
tendinite e fascite plantar (dor na sola do pé), principalmente se você caminha grandes distâncias
com um modelo do tipo.
Um risco tanto para quem usa muito salto quanto para quem vive de
sandália rasteira é o de sofrer sofrer torções nos tornozelos, justamente pela
instabilidade. Ainda assim, os saltos altos, principalmente os mais fino,
representam perigo maior de entorses.
Os melhores saltos são os baixos e médios (cerca de 4 centímetros) e
grossos. Eles são indicados inclusive para quem tem dor lombar ou encurtamento
dos músculos da perna. Anabela, plataforma e meia patas (que possui plataforma
apenas na parte da frente do pé), que têm apoio ao longo do pé ou salto mais
largo, são alternativas que oferecem mais estabilidade ao caminhar.
E sapatos de bico fino:
deformam os pés?
Ganhar pés feios é uma preocupação das adeptas de scarpins. O temor não é
infundado, já que os calçados estreitos na ponta comprimem a parte dianteira do
pé e muitas vezes fazem com que o dedão se amontoe sobre o dedo ao lado. Com o
tempo, esse desalinhamento pode ficar fixo. É quando surge o hálux valgo, nome
científico do joanete.
A espécie de calo que se forma na parte externa do dedão é a deformação
mais comum, mas não a única. Algumas mulheres desenvolver o chamado bunionette
(protuberância no quinto dedo), além de outras calosidades. Além do incômodo
estético, essas distorções podem causar desconforto, rigidez no dedo deslocado
e dor.
É importante lembrar que quanto mais duro for o material do sapato e mais
estreita a ponta, maior será o risco de ter alguma lesão. E que a combinação de
salto alto e bico fino é a mais nociva para os pés.
Como prevenir os danos?
Se seu emprego ou gosto pessoal impede você dê folga ao salto, vale colocar
em prática alguns cuidados capazes de prevenir estragos à saúde dos pés,
pernas, quadril e coluna. O mais importante é praticar uma atividade física
regularmente. Movimentos de alongamento devem complementar todas as sessões.
Além de melhorar os músculos encurtados, os exercícios fortalecem os tendões
que passam nos pés e tornozelos.
Evite andar de salto em superfícies irregulares ou acidentadas -- assim,
você previne acidentes. E quando precisar caminhar bastante ou estiver no
transporte público, troque por um sapato mais baixo. Por último, evite ficar
horas seguidas com o salto e, se possível, dê um descanso para os pés no
ambiente de trabalho.
*** Fontes: Ivan Rocha, ortopedista especialista em coluna do
Instituto de Ortopedia e Traumatologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de
Medicina da USP (Universidade de São Paulo); Marcelo Risso, ortopedista do
grupo de coluna da Unicamp; e Renato Ueta, ortopedista e chefe do Grupo de
Patologias da Coluna Vertebral da Unifesp.


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