FONTE:
, Nina Calil (colaboradora), https://www.msn.com/
Durante anos, encarei meus pratos e doces
favoritos como grandes inimigos. Para me manter a salvo do perigo, evitava
qualquer interação social que envolvesse comida – aniversários, casamentos, happy hours... Eu tinha medo de começar a comer “só um
brigadeirinho” e não conseguir mais parar. Tinha certeza de que poderia perder
o controle a qualquer momento.
E
não era bem um exagero: por muitas vezes, eu realmente só parei ao me sentir
cansada, com a barriga doendo ou prestes a vomitar. Demorei a entender que
sofria de um distúrbio alimentar e, embora já houvesse buscado ajuda especializada,
ainda não tinha descoberto uma nova forma de lidar com a comida quando topei um
desafio: experimentar a mindful eating,
técnica que prega o “comer com atenção plena” e é considerada uma das
estratégias auxiliares no tratamento de distúrbios alimentares como a compulsão (que
eu conhecia bem), a bulimia e a anorexia.
Admito
que entrei no consultório da nutricionista Manoela Figueiredo, de São Paulo,
certa de que a ideia de parar para ouvir meu corpo jamais iria funcionar
comigo. Deixar de separar os alimentos como “bons” e “ruins” e entender que
a fome é uma sensação saudável e involuntária me
pareciam objetivos muito distantes para quem havia vivido inúmeras histórias
frustradas com dietas – eu, por exemplo, emagreci 10 quilos e fiquei
magra, mas continuei me enxergando gorda. Me enganei. Em um mês, voltei a comer com prazer e sem culpa tudo o que amo e, pela primeira vez em
anos de uma suposta vida saudável, entendi o que é viver em equilíbrio.
Sessão 1: Comer sem culpa.
Depois
de tantas idas a profissionais especializados em emagrecimento, cheguei ao consultório da nutricionista já prevendo o
que iria acontecer: ela me mandaria subir na balança, tiraria minhas medidas e
perguntaria se exagero nos doces e massas. Errei feio. Não vi nem adipômetro na
sala. Apenas conversamos sobre meus hábitos alimentares desde a infância, as
comidas favoritas (que eu acabei estipulando como inimigas), estilo de vida e
até sobre a minha estrutura familiar.
Segundo
Manoela, tudo isso influencia na nossa relação com os alimentos. Tive o
primeiro insight: desenvolvi a neura de emagrecer depois
de ouvir, anos atrás, que eu poderia ser bem mais magra. “Você criou vilões, e,
mesmo quando pensa que está se permitindo apreciar
um bombom ou um pão francês,
na verdade
não está.”
Então
saí do consultório com a missão de me deliciar com algo que me despertasse
bastante vontade, sem culpa ou julgamentos. Além de
anotar, nos sete dias seguintes, os sentimentos que me acompanhavam nas
refeições, inclusive nos lanchinhos.
Sessão 2: Diferenciar a fome física
da emocional.
Cheguei
com a lição de casa feita: todas as vezes que tive vontade de
comer, registrei como estava me sentindo (triste, tranquila,
ansiosa...). Fiz isso por uma semana para que Manoela pudesse me ajudar a
distinguir a fome física da psicológica e, agora, não tenho dúvida: todas as tardes em que
devorei um saquinho de 300 gramas de pão de queijo numa tacada só não tinha nada a ver com necessidade
física, e sim com a tentativa de aplacar a ansiedade. E o que vinha depois – arrependimento (por que não
parei no segundo ou terceiro pãozinho?) e culpa (você falhou de novo!) – me deixava ainda pior.
Hoje, sento e penso sobre o assunto todas as vezes antes das refeições – é um
exercício que demanda energia e empenho, mas acaba virando um hábito importante
para você comer só o necessário, mesmo nos dias em que as emoções não estão
muito a seu favor.
Sessão 3: Reconhecer os sinais do
corpo.
Uma enxaqueca forte e persistente (tomei dois analgésicos e nada
de melhorar) me acompanhou na terceira sessão. Manoela perguntou o que eu
comeria para aliviar
o mal-estar. “Nada”, respondi. Eu estava enjoada, sem
fome e não conseguia nem pensar em mastigar. Ela voltou a questionar se eu não
estava evitando algo por medo de sentir culpa. Então fechei os olhos e falei em
um tom de quase confissão (e já esperando a bronca): “Daria tudo por um refrigerante com gelo e limão (tática que minha mãe usava para
amenizar minha ansiedade quando eu era criança)”.
O
que ouvi em seguida me deixou surpresa: “Assim que você sair daqui, passe numa
padaria e tome a bebida com calma”. Fiz isso e começaram a surgir lembranças da
infância que me trouxeram a sensação de alívio e conforto. “Existem certas
situações que fogem do nosso controle, mas o equilíbrio está justamente em como
reagimos a elas”, disse Manoela. Mais três ou quatro goles no refrigerante e o
mal-estar desapareceu, assim como a ideia de que algumas comidas são minhas
inimigas mortais.
Sessão 4: Exercício final.
Nas
duas semanas que antecederam a quarta e última sessão (a mais longa delas), não
tive nenhum episódio de compulsão. Melhor ainda: voltei a participar (e gostar!) da happy
hour com as amigas e dos encontros de família – eventos que sempre envolvem
comida e, portanto, de que eu tentava escapar. Isso me fez chegar radiante ao
consultório e pronta para mais um exercício que tem o objetivo de trabalhar o
controle mental e emocional.
Para
isso, Manoela pediu que eu levasse um lanche do qual eu gostasse muito. Escolhi um pote de açaí, que tantas vezes evitei por achar que as pessoas iriam
me recriminar. O primeiro passo foi olhar o pote com afeto e, em seguida,
cheirar o açaí para estimular as papilas gustativas e salivar – só então levei
o creme gelado à boca.
Saboreei todo o conteúdo aos poucos, descansando o talher na mesa entre uma
colherada e outra para afastar a pressa. Assim que terminei, Manoela me
perguntou como eu estava me sentindo. “Satisfeita e feliz.” Feliz por
ter conseguido estabelecer
uma relação positiva com a comida e me permitir matar minhas vontades em
situações pontuais e com controle – isso tudo em um mês!

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