Nos comerciais de TV, o
Natal e o Ano-Novo parecem ser sinônimos de momentos alegres: famílias
sorridentes partem o peru e trocam presentes. Na cabeça de muita gente, no
entanto, a noite não é assim tão feliz. O CVV (Centro de Valorização da Vida),
instituição civil sem fins lucrativos que oferece apoio emocional e prevenção
de suicídio, percebe um aumento de 20% em ligações
de pessoas em dezembro com queixas como tristeza, angústia e preocupações
relacionadas ao clima de festas. O órgão recebe, diariamente, 10 mil ligações.
"É uma solidão de
fim de ano", explica o engenheiro Carlos Correia, 65, voluntário do CVV há
26 anos. "Rola todo um balanço de metas e a pessoa percebe que nem tudo
pode ter dado certo. É um pessimismo que pode existir o ano todo, mas que fica
mais intenso nessa época".
De acordo com o
psiquiatra Luiz Scocca, do Hospital das Clínicas da USP (Universidade de São
Paulo), as pessoas sofrem com o estresse das compras de presente e dos eventos
sociais. "Existe uma pressão para estar feliz, o que gera
angústia. Elas também se sentem obrigadas a passar o tempo
com pessoas com quem elas não gostariam".
Apesar da tristeza de
fim de ano ser comum, dezembro não é o mês que registra o maior número de
ocorrências de suicídio. "Há um mito de que há muitos casos neste mês. Na
realidade, há até uma retenção", diz a médica psiquiatra Ana Paula
Carvalo, coordenadora da Liga de Depressão do Instituto de Psiquiatria da USP
(Universidade de São Paulo). "Nós
acreditamos que seja porque a família e os amigos das pessoas com pensamentos
suicidas ficam mais próximos, o que as
protege", fala a especialista.
A agenda lotada de
eventos sociais também pode ajudar estes indivíduos em risco. No entanto, o
número de casos volta a aumentar depois do Natal. "É quando as pessoas vão
curtir a festa da virada do ano com seus amigos e essa pessoa pode ficar
sozinha de novo", explica a médica.
Um levantamento da
Fundação SEADE, órgão do governo de São Paulo para análise de dados, percebeu,
por exemplo, que de 2013 até 2014 o número médio diário de suicídios em
dezembro foi cerca de seis casos, enquanto o de janeiro foi de sete. Ao
contrário do mito, a pesquisa deu conta que o
mês com maior número de ocorrências foi setembro, com média de oito casos por
dia.
Como lidar com a
angústia?
Para driblar estas
sensações é preciso algum autoconhecimento e, principalmente, respeito pelos
próprios limites. Com a ajuda dos especialistas, a Universa mostra como
lidar com a tristeza nessa época:
Não crie grandes
expectativas.
Estabelecer metas
inalcançáveis é a receita perfeita para terminar o ano frustrado. Por isso,
evite criar grandes expectativas para o próximo ano.
Aprenda a dizer
"não".
"Não diga 'sim'
quando você não quiser fazer algo. Não é um absurdo não passar o Natal com a
sua família. E justamente porque essa é uma época difícil, programe-se para
evitar reuniões indesejadas. Não é porque é tradição que você precisa passar as
festas de fim de ano com a sua família se você não se identifica com ela",
diz Scocca.
Evite ficar solitário.
Não se isole nesta
época. Se for passar a noite de Natal sozinho, programe-se para isso. "Tem
algumas pessoas que gostam de fazer um retiro de meditação, mas é importante
estar preparado para o isolamento", fala o médico psiquiatra do Hospital
das Clínicas.
Encontre a sua maneira
de curtir as festas de fim de ano.
"Faça um Natal que
tenha a ver com você. Se é uma pessoa mais tranquila, por exemplo, siga neste
caminho. Não precisa fazer uma festança cheia de gente. Faça algo que esteja de
acordo com os seus valores", aconselha Ana Paula. "E aproxime-se de
pessoas com quem você tenha mais afinidade".
Respeite seu tempo.
No entanto, se, mesmo
assim, você se sente pressionado a visitar sua família, não se coloque em uma
situação desconfortável por muito tempo. "Vá, mas não precisa ficar o dia
inteiro. Não fique mais do que é necessário para você", complementa Ana
Paula.
Procure a ajuda de um
especialista.
Não deixe para procurar
ajuda especializada no ano que vem. "Comece a fazer um acompanhamento
médico assim que sentir que é necessário. Não espere janeiro chegar",
finaliza Scocca.
*Se
você está passando por algo semelhante ou conhece alguém que precise de ajuda,
disque 188 - Centro de Valorização da Vida.


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