Será que transtornos
mentais como esquizofrenia e transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) podem ser
deflagrados pela reação do organismo a vírus, bactérias, fungos ou parasitas?
Pesquisadores têm estudado a ligação entre as doenças da mente e reações
inflamatórias há bastante tempo, e até o mal de Alzheimer já foi associado à
infecção pelo herpes.
Agora, um estudo
recém-publicado em uma prestigiada revista científica de psiquiatria, a Jama
Psychiatry, vem reforçar essa conexão. O trabalho, realizado na Dinamarca,
chama atenção por envolver um grande número de pessoas: 1,1 milhão, dos quais
42 mil (3,9%) foram hospitalizados por transtornos mentais e quase 57 mil
(5,2%), medicados com algum tipo de psicotrópico.
A equipe, do Hospital
Universitário de Aarhys, utilizou os registros nacionais para avaliar, ainda, a
ocorrência de infecções graves que levam a hospitalizações, como pneumonias e
bronquites, e outras mais leves, como doenças causadas por fungos e parasitas.
Embora a maioria das
crianças da amostra tenha sido diagnosticada com algum tipo de infecção, apenas
cerca de 4% receberam diagnósticos psiquiátricos, como esquizofrenia,
ansiedade, transtorno de deficit de atenção e hiperatividade (TDAH) e
transtornos de personalidade.
Mas os pesquisadores
descobriram que as crianças hospitalizadas por causa de alguma infecção
apresentaram um risco 84% maior de ser diagnosticadas com um transtorno mental
mais tarde. Elas também tiveram uma probabilidade 42% maior de receber um
medicamento para essas condições.
Infecções menos graves,
tratadas com antibióticos, antivirais, antifúngicos ou antiparasitários foram
associadas a um risco 40% maior de transtorno mental. Os autores também
descobriram que o risco era maior nos primeiros três meses após a infecção. E
quanto mais severo o quadro, maior era o risco.
Para tentar obter dados
mais confiáveis, a equipe decidiu levar em consideração questões genéticas. Os
autores compararam os resultados com os de 800.000 irmãos da amostra. Em outras
palavras, eles compararam irmãos que tiveram infecções com aqueles que não
tiveram. Ao fazer a análise, o risco de ser diagnosticado com um transtorno
mental após uma hospitalização caiu de 84% para 21%. O fato de a propensão não
ter caído para zero reforça a ideia de que essa ligação entre sistema
imunológico e cérebro faz sentido, segundo os autores.
Outros estudos mais
antigos, inclusive um feito por integrantes da mesma equipe, já haviam
associado hospitalizações por infecções e doenças autoimunes com a ocorrência
de transtornos de humor, como a depressão e a doença bipolar, em adultos.
Também há algumas evidências de que filhos de mulheres que contraíram gripe na
gravidez teriam uma propensão mais alta à esquizofrenia.
É preciso deixar algo
bem claro aqui: o estudo dinamarquês, assim como diversos outros do tipo, são
observacionais, e não comprovam a relação entre causa e efeito. Mas os
pesquisadores têm algumas teorias para explicar os possíveis mecanismos que
tornariam indivíduos acometidos por infecções mais vulneráveis a doenças
mentais.
Uma das alegações é que
muitos micro-organismos são capazes de atingir o cérebro, como o parasita que
provoca a toxoplasmose e o próprio herpes vírus. Outra possível explicação é
que medicamentos como os antibióticos modificam a flora intestinal, e isso
teria repercussões. Não é à toa que o intestino é chamado de “segundo cérebro”:
boa parte da serotonina, um neurotransmissor associado ao bem-estar, é
produzida ali.
Se essas conexões forem
confirmadas, é possível que um dia a gente tenha medicamentos mais eficazes
para os transtornos psiquiátricos, e quem sabe até meios de evitar esses males,
que causam tanto sofrimento.


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