A professora e pesquisadora em química de Franca, no interior de São
Paulo, Joana Félix, 54, acumula mais de 70 prêmios internacionais na carreira,
como o prêmio Kurt Politzer de Tecnologia de "Pesquisadora do Ano",
em 2014. Com um pós-doutorado na Universidade de Harvard, ela poderia estar
sendo prestigiada nos Estados Unidos. Mas questões pessoais fizeram com que
seus planos se alterassem. Há 14 anos, ela muda a vida de jovens em situação de
risco em sua cidade natal. "É a transformação através da pesquisa
científica", diz a paulistana à Universa. Ela é uma das
palestrantes magistrais da Campus Party Brasil 2019, que acontece do dia 12 a
17 de janeiro de 2019, em São Paulo (SP).
Desde 2004, a cientista consegue bolsas de iniciação científica para
alunos da Escola Técnica Prof. Carmelino Corrêa Junior, que fica em City
Petrópolis, bairro da periferia de Franca (SP). Atualmente, Joana tem, ao todo,
20 orientandos, selecionados em um um processo que não leva em conta a nota do
aluno, mas sua história. "Os outros professores me falam de jovens que
podem estar envolvidos com o tráfico e a prostituição e eu ofereço a bolsa para
eles", explica Joana.
Segundo Joana, o projeto já conquistou 103 prêmios nacionais e
internacionais, além de ter registrado 15 patentes. Entre elas estão pele
sintética desenvolvida a partir da pele suína e o cimento ósseo para
reconstruir fraturas. "Foram todos trabalhos feitos junto com os
alunos", esclarece. Nas pesquisas, eles reutilizam sobras do setor
calçadista de Franca, que gera 220 toneladas de resíduos diariamente.
Excluídos.
Moradora da cidade conhecida por sua indústria de calçados, Joana cresceu
em uma casa construída no terreno de um curtume, onde o couro animal passa por
processos químicos para ser tratado e usado na indústria. Como o cheiro do
local é muito forte, eram poucos o coleguinhas que iam até a casa dela brincar
ou visitá-la. "Eu e meus irmãos éramos conhecidos como Os Meninos Fedidos
do Curtume", narra.
Aos 4 anos, a patroa da mãe, que era empregada doméstica, conseguiu uma
vaga para escola em um Senai ao vê-la lendo. "Minha mãe me ensinou para
que eu ficasse quietinha enquanto ela trabalhava", ri. Aos 14, ela tinha
se formado no ensino médio. O curtume, que lhe rendeu os apelidos maldosos,
virou a inspiração para que ela fosse estudar química na Unicamp. "Eu via
os químicos com aqueles jalecos brancos e achava lindo", comenta.
Formou-se em química industrial e partiu para os EUA, de onde retornou em 2002,
após a morte da irmã e do pai.
Apesar da trajetória de sucesso, Joana sempre se sentiu "por
fora" do meio acadêmico. "Eu sei o que é ser excluída, humilhada
pelos outros", diz. Por isso, ela decidiu trabalhar com outros jovens que,
assim como ela, só precisavam de uma oportunidade.
Ela explica que teve a ideia de abordar estudantes envolvidos com o
tráfico ou prostituição porque percebe que eles não costumam ver que podem ir
além do ensino médio ou a escola técnica. E a pesquisa científica é uma forma
de "transformar" a vida deles. "Temos o costume de premiar apenas
os melhores alunos, mas também precisamos trabalhar com os 'piores', mostrar
que todos têm talentos". Joana conta, orgulhosa, que já formou cerca de 34
alunos, 26 deles cursaram ou estão cursando o ensino superior.
A preocupação com o aspecto social e ambiental da ciência não são à toa.
Por ter sempre estudado em escolas públicas, Joana Félix sente que tem uma
dívida com os brasileiros. "Eu pude me formar graças aos impostos pagos
pelas pessoas", afirma. "Foco em pesquisas aplicadas, que possa mudar
a vida das pessoas, porque esta é uma forma de retribuir".


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