domingo, 19 de setembro de 2010

OS FILHOS DA RUA JÁ SOMAM QUATRO MIL...

FONTE: Lucy Andrade, TRIBUNA DA BAHIA.

Salvador já possui mais de quatro mil moradores de rua. São pessoas, entre homens, mulheres, crianças e idosos, que vagam dia e noite, em estado de miséria, pelas esquinas da terceira maior capital do país. Retrato da desigualdade social, eles estão em todos os locais: debaixo dos viadutos, nas portas das igrejas, nas calçadas dos prédios e até em porta de escolas. A razão para isso é bastante variável, mas as principais apontadas pelos próprios pedintes são: brigas e conflitos no ambiente familiar, desemprego, consumo de álcool ou de drogas e a busca pela liberdade.
A situação é de indigência, o mau cheiro incomoda quem se aproxima, roupas sujas, latas com resto de alimentos, papelão com resto de fezes, e histórias parecidas. Na Avenida Sete, Vivaldo da Silva, 55 anos, pai de dois filhos, que não vê há anos, culpou a falta de emprego por sua situação de vida. “Já nasci pobre e sem pai.
Morava com minha mãe e meu irmão, minha mãe morreu, eu e meu irmão vivíamos brigando, então, sai de casa. Fui morar no Albergue e arrumava dinheiro como guardador de carros, me colocaram para fora de lá, e vim para as ruas.
Se tivesse arrumado um emprego, eu não dormiria no chão e nem ficaria dias sem comer”, lamentou Vivaldo. Há mais de 10 anos, sua mulher desapareceu com as crianças, que também ficaram sem pai.
Deitada em um papelão e coberta com um fino lençol, Valdete Lima, 62 anos, que divide o espaço da calçada, na Rua da Mouraria, com o seu companheiro, Juracy da Conceição dos Santos, 67 anos, tem nas expressões do rosto as marcas de quem viveu todas as mazelas da vida. “Falar o que? A minha vida é isso aqui. Morava em um barraco no subúrbio, com ele (marido) e um filho, que dei para uma vizinha criar.
Juracy fazia biscate, que não dava para nada, aí a casa caiu e vim morar na rua. Já estou aqui há vários anos. A coisa é essa, bebo água da torneira, faço xixi e tudo nos cantos, peço comida ou pego do lixo. Sempre vivi assim – na miséria – sem nada. Pronto”, contou, triste, e com a rispidez de quem já narrou essa história várias vezes.
No bairro de Nazaré, a situação é de abandono, os moradores de rua tomaram conta das calçadas, eles estão espalhados por todos os lados, as casas abandonadas servem de refúgio tanto para moradores de rua, quanto para viciados, que não se reprimem em ascender seus cigarros e cachimbos de “erva” e crack. “Minha mãe me expulsou de casa porque eu brigava muito, ela achava que eu era viciado, só bebia. Então, a rua me acolheu”, disse Luan da Anunciação Neves, 25 anos, enquanto andava de um lado para o outro, na praça Castro Alves.
Em frente à igreja da ladeira da Barroquinha, Lurdes Maria Batista, 32 anos, acompanhada de mais três pessoas e com um bebê de 10 meses, ainda sonolenta, começou a arrumar sues pertences para iniciar a peregrinação, que já perdura por 15 anos. “Vim parar nas ruas por falta de uma família, por falta de moradia, por falta de estudo. Morava com minha mãe, mais dois irmãos e meu padrasto, que batia muito na gente.
Quando minha mãe foi embora, sai de casa e fui morar com uma amiga, em Periperi, engravidei e fui atrás do pai da criança, que nunca mais vi. Meu filho é da rua, do mundo. Eu queria ter estudado, queria ter sido veterinária, e tudo deu errado, e hoje vivo como animal, em busca de comida. Já fui para esses abrigos, mas é tudo tão ruim quanto aqui na rua”, reclamou Lurdes.
LIBERDADE OU FALTA DE OPÇÃO.
O cotidiano de Lurdes é compartilhado por milhares de pessoas em Salvador, que de forma ainda “invisível” perante o poder público, vivem nas ruas.Os dados estatísticos sobre a população das ruas, ainda é desencontrada. De acordo com a Setad há nas ruas de Salvador duas mil pessoas, mas conforme dados do Ministério do Desenvolvimento Social, há cerca de quatro mil pessoas.
Em 2007, a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social abordou 4.912 moradores de rua na cidade. Em 2009 uma pesquisa realizada pela Secretaria Municipal de Trabalho e Ação Social (Setad) e Fundação José Silveira, só identificou 2.076.
As áreas que mais registram moradores de rua são Cidade Baixa, bairros do Comércio, Mares, Calçada, Roma, Bonfim, Massaranduba e Boa Viagem. Em seguida vem a área do Centro Histórico, espalhadas entre o Pelourinho, Baixa dos Sapateiros, Barroquinha e Barbalho, Centro, Avenida Sete, Carlos Gomes, Rua Chile, 2 de Julho, Gamboa e Largo dos Aflitos. Além da Barra e Pituba, Campo Grande, Imbuí, Federação, Baixa do Fiscal, Cabula, Pirajá e São Rafael.
De acordo com a Secretaria do Trabalho, Assistência Social e Direitos do Cidadão (Setad), além da falta de opção, a liberdade e a falta de regras, principalmente para os usuários de drogas, são considerados atrativos para que as pessoas optem por morar debaixo de viadutos, praças e sob as marquises de prédios. “Ainda há pessoas que deixam as suas cidades atraídas pelas oportunidades que a metrópole pode oferecer e terminam não encontrando espaço no mercado de trabalho ficando sem condições de sobrevivência digna e sem moradia”, disse.
De acordo com secretário Marcelo de Abreu o problema é que muitas vezes as pessoas que estão morando nas ruas não querem ser ajudadas, preferem morar nas vias. “É preciso que a população entenda que o nosso trabalho é de convencimento. Por isso é necessário que as pessoas aceitem a ajuda, muitos não querem ter responsabilidade, já estão acostumados a viver sem regras, acham que ter limites significa estar em uma prisão, por esse motivo, muitos voltam às ruas”, ressaltou Abreu.
A primeira medida das equipes da Setad é acolher os moradores de rua nos albergues e casas de pernoite onde, além de alimentação, higiene e cama individual, os abrigados podem participar de cursos de alfabetização, de grupos de convivência social e de assistência psicológica. “O nosso objetivo é inclusão social, então proporcionamos a elas subsídio para aluguel, escolarização, inclusão em atividades culturais, de esporte e lazer, inclusão digital, acesso a documentação básica e buscando sua reinserção familiar”, disse Abreu.

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