FONTE: Camila Neumam, do UOL, em São Paulo (noticias.uol.com.br).
Biscoito sabor
picanha para cães, pasta de salmão para gatos, xarope de laranja para
passarinhos. Estas delícias, digo, remédios, são a nova realidade entre os
produtos criados para os pets, feitos em farmácias de manipulação veterinária.
Com conceito de
agradar aos bichanos e facilitar a vida dos donos, os tradicionais comprimidos
foram transformados em guloseimas oferecidas como petiscos ou disfarçadas em
géis para serem lambidos sem cerimônia.
Diferentemente das
farmácias de manipulação tradicionais, as farmácias de manipulação veterinária
oferecem remédios feitos com insumos de uso animal, misturados a sabores
artificiais -- churrasco é o preferido dos cães e peixe, dos felinos.
O objetivo é deixar
bichinhos saudáveis e felizes e acabar com as dificuldades dos donos na hora de
administrar medicamentos.
"Quando eu dou o
remédio normalmente ela sai correndo, porque tenho que abrir a boca e colocar
na goela. Com o remédio manipulado, ela come e fica feliz", afirma a
engenheira de software Suzane Machado, 40, dona da cadela Meg, 5, que toma
remédio há um ano para tratar uma pancreatite.
Felicidade e preço.
Todos os dias, a
moradora de Curitiba (PR) oferece à fêmea de Fox Terrier um petisco de sabor
peixe, além de outro medicamento em pó, misturado ao arroz integral com
frango, já que Meg não pode comer ração por causa da doença. Suzane paga R$ 127
ao mês pelas duas medicações.
"Acho que é um
pouquinho mais caro [do que remédios industrializados], mas vale a pena pelo
custo benefício. Você não faz seu bichinho sofrer", diz.
A farmacêutica Sandra
Schuster, sócia-fundadora da farmácia de manipulação veterinária DrogaVet, com
23 unidades espalhadas em dez Estados e no Distrito Federal, enxergou um
mercado promissor neste nicho há dez anos, quando abriu a primeira unidade na
capital paranaense.
Hoje a rede fatura R$
15 milhões por ano e pretende abrir no ano que vem mais cinco lojas no Sudeste
e no Nordeste, com ênfase nos medicamentos e em cosméticos. A empresária leva
em conta os números crescentes das vendas no Brasil.
De acordo com dados
da Abinpet (Associação Brasileira da Indústria de Produtos para Animais de
Estimação), o país possui o segundo maior faturamento do mercado pet do mundo,
perdendo somente para os Estados Unidos.
Em 2014, a estimativa
de faturamento do setor no país é de R$ 16,5 bilhões, 8,6% acima do faturado em
2013. O setor de medicamentos abrange 7,2% deste valor, e é considerado um
mercado em expansão.
Segundo a
farmacêutica, o remédio manipulado tem a vantagem de ser produzido na dose
adequada ao animal, sem a necessidade de ter que fracionar comprimidos.
"A gente leva em
conta o que vai facilitar a administração, além da própria idade do bicho. Hoje
temos muitos casos de longevidade entre animais, e os mais velhos têm
dificuldade de mastigar. Por isso criamos um xarope. Para os gatos, cuja
dificuldade de abrir a boca é enorme, criamos uma pasta para passar nas patas
porque é ali que eles vão lamber", diz.
Prós e contras
O farmacêutico
Luciano Romagnolli, da Vida Animal, farmácia localizada em São Paulo, afirma
que os medicamentos feitos no laboratório seguem o pedido do veterinário e as
normas sanitárias exigidas pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e
Abastecimento.
Para o farmacêutico,
a grande vantagem dos remédios manipulados em relação aos industrializados é
levar em conta as características físicas dos animais e suas preferências.
"E também o peso do animal, já que há cães e gatos com peso muito acima do
ideal, o que dificilmente a indústria leva em conta", diz Romagnolli.
Assim como nas
receitas médicas humanas, há veterinários que abusam dos garranchos ou das
dosagens. Quando isso acontece, o farmacêutico diz entrar em contato com o
veterinário.
"A gente tem que
seguir o que é pedido pelo veterinário. Seguimos normas rígidas, as mesmas da
indústria, mas a maioria dos veterinários não conhece os benefícios da
manipulação", afirma.
Para a veterinária
Paula Galera, professora de cirurgia de pequenos animais da Universidade de
Brasília, os remédios manipulados podem ser aceitos sem distinção pela
população, já que levam o mesmo princípio ativo do remédio industrializado em
sua fórmula.
"O que é
interessante no medicamento veterinário manipulado é a sua forma de
administração, que leva em conta as particularidades das espécies. É a mesma
coisa que pensar nas diferenças entre os remédios pediátricos e de adultos.
Esses são regulados e atrativos para os animais", diz.
Já para a veterinária
Silvana Górniak, professora titular do Departamento de Patologia da Faculdade
de Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo, faltam garantias de
que os remédios manipulados para animais são totalmente confiáveis. Górniak
leva em conta a falta de fiscalização na compra dos insumos pelos laboratórios
e a falta de conhecimento de farmacêuticos sobre a fisiologia animal.
"O farmacêutico
que formula medicamentos para humanos tem esse conhecimento, mas não sei como
ele formula para cada animal. Cada espécie responde de uma forma diferente na
absorção. Será que esses aromatizantes não interferem no percurso do remédio no
organismo?", questiona.
Fiscalização.
O Ministério da
Agricultura não soube precisar quantas farmácias de manipulação veterinária existem
atualmente no país, mas informou, via e-mail, que as farmácias precisam de uma
licença emitida pelo próprio ministério para funcionar.
Segundo a pasta, a
fiscalização é feita eventualmente por fiscais federais, que chegam de forma
periódica aos estabelecimentos, sem aviso prévio, quando é necessária a
renovação da licença.
O registro da
farmácia de manipulação veterinária é feito junto às Superintendências Federais
Agropecuárias de cada Estado.

Nenhum comentário:
Postar um comentário