FONTE: Elioenai Paes - iG São Paulo, TRIBUNA DA BAHIA.
No Brasil existem cerca de 12 milhões de
diabéticos: 10% deles ou 1,2 milhão, têm diabetes tipo 1, conhecida também por
infanto-juvenil. O número ainda diminui quando filtra-se apenas crianças e
adolescentes de até 19 anos. Talvez metade desse número sejam os
insulino-dependentes com até 19 anos.
As
crianças, no entanto, têm dificuldade de identificar os sintomas de
hipoglicemia, enquanto os hormônios dos adolescentes fazem com que tudo fique
irregular.
E a
Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), Sociedade Brasileira de Pediatria
(SBP), Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), Associação
de Diabetes Juvenil (ADJ), Associação Nacional de Assistência ao Diabético
(ANAD) e Federação Nacional do Diabetes (FENAD) lutam, juntas, por meio
também de um abaixo-assinado ao Ministério da Saúde (link aqui), para
que uma insulina que previne esses problemas seja disponibilizada no Sistema
Único de Saúde (SUS).
“Não é
uma luta nossa, é uma luta para os pacientes”, explica Karla Melo, coordenadora
do Departamento de Saúde Pública da Sociedade Brasileira de Diabetes.
Para
entender melhor, o diabético precisa usar dois tipos de insulina diariamente. A
basal, de ação lenta, e outra de ação rápida, que deve ser usada quando a
pessoa vai se alimentar. É essa de ação rápida que as sociedades pleiteiam.
A
razão? Os carboidratos ingeridos por meio da comida se transformam em açúcar
dentro de uma ou duas horas, período em que caem no sangue e o “adoçam”. Mas o
sangue não pode ficar “doce” e, como os diabéticos não têm um pâncreas que
fabrica o hormônio que tira esse açúcar do sangue, é necessário que uma
insulina externa faça essa ação.
A
questão é que essa insulina que será aplicada precisa ser ágil, fazer seu
trabalho e se retirar rapidamente, passando a bola para a insulina basal, que é
constante. Mas não é bem isso que a insulina regular (que usa-se para tirar o
açúcar do sangue depois das refeições), distribuída pelo SUS, faz.
Karla
explica que a insulina hoje disponível para a saúde pública tem seu pico de
ação e dura cerca de seis a oito horas no organismo. A que eles buscam
implementar dura no máximo três ou quatro horas. E essa duração menor é ótima,
é assim que tem de ser, já que essa insulina deve agir exclusivamente para
anular os carboidratos ingeridos nas refeições.
“Se uma
pessoa janta às 20h, a insulina de ação rápida deve ter seu pico de ação
imediatamente e depois deixar que a insulina basal faça o seu trabalho. Se a de
ação rápida continuar agindo muito tempo, vai dar hipoglicemia”, explica a
médica. Além disso, a insulina disponível hoje no SUS demora para começar a
agir, o que obriga o paciente a aplicá-la 45 minutos antes da refeição.
Ter de
planejar exatamente o que se vai comer com 45 minutos de antecedência não é tão
fácil. É preciso calcular quantas colheres de arroz, feijão, macarrão, ou
outros alimentos e aplicar a quantidade de insulina capaz de anular tudo o que
será ingerido 45 minutos antes de comer.
Mas e
se algo der errado e o apetite fugir? E se na hora do almoço a vontade de comer
mais for irresistível? E se a criança de três anos se recusou a comer a
quantidade que a mãe havia planejado para ela? O remédio vai demorar cerca de
45 minutos para começar a agir e, nesse meio tempo, a glicemia estará
altíssima, causando os picos de hiperglicemia.
E é a
partir desse descontrole que acontecem as complicações causadas pelo diabetes,
a longo prazo. Muito açúcar no sangue leva a problemas nos rins, na visão, no
sistema vascular, além de outros.
Já a
insulina análoga de ação realmente rápida pleiteada pelas sociedades ligadas ao
diabetes começa agir rapidamente, e deve ser aplicada já à mesa, pouco antes de
começar a refeição. Ou, no caso dos bebês e crianças, assim que terminar de
comer, pois assim sabe-se exatamente a quantidade de remédio será necessária.
Segundo
os cálculos de gastos das sociedades envolvidas na petição, o governo gastaria
R$ 136 milhões no quinto ano da incorporação das novas insulinas.
Como
haveria uma evolução no número de beneficiários atingidos pelo programa, a
tendência é que nos primeiros anos gaste-se menos, chegando, no quinto ano, ao
valor máximo de R$ 136 milhões. “Não estamos pedindo insulina basal análoga
agora, que se gastaria mais. Estamos pedindo a de ação rápida”, explica ela.
O
Ministério da Saúde afirma, em nota, que em 2014 gastou R$ 263,3 milhões
com todos os medicamentos para tratamento do diabetes distribuídos
gratuitamente.
Há três
tipos de insulina que eles sugerem que o governo escolha alguma delas e
implante: aspart, glulisina, lispro. Todas elas agem da mesma forma.
"Colocamos em ordem alfabética porque não temos preferência específica
entre elas", diz Karla.
Os
resultados dos exames de hemoglobina glicada, explica a endocrinologista,
considerado o mais importante teste para demonstrar a média da glicemia ao
longo de três anos, pode ter interferido nos resultados sobre o controle
glicêmico.
Naturalmente,
se há picos de hiperglicemia e hipoglicemia, a média será normal. Só que,
nesses picos de hiperglicemia, os rins, olhos e outros membros são lesados. Nos
picos de hipoglicemia, o cérebro não recebe seu alimento – o açúcar – e a
pessoa perde os sentidos e pode entrar em coma.
Denise
Ludovico, endocrinologista da Associação de Diabetes Juvenil (ADJ) explica que
o impacto na economia também deve ser pensado a longo prazo. “Diminui-se o
gasto com internação e tratamento de pacientes por causa das complicações, que
pode ser desde retinopatia diabética até amputação de pés e membros”, defende.
“Gasta-se agora para evitar gastar depois”. A qualidade de vida entra em cena.
É
importante ressaltar, no entanto, que a insulina disponível hoje no SUS salva
vidas. Embora haja melhores, muitas vidas dependem dela. Karla questiona
que, se já existem outros tipos mais eficazes no mercado – que fornece
qualidade de vida aos pacientes – e o valor cabe no orçamento do governo, não
há razão para continuar fornecendo a antiga.
Em
nota, o Ministério da Saúde informa que as insulinas regular e NPH têm
qualidade, segurança e eficácia comprovada, "não havendo nenhum estudo que
aponte que as insulinas análogas são melhores ou superiores as já ofertadas,
que melhorem a sobrevida dos pacientes ou reduzam complicações. Além disso, por
ser um produto mais recente, encontra-se sob vigilância de pós-comercialização,
não tendo segurança de longo prazo comprovada".
A
Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), junto com a Sociedade Brasileira de
Pediatria (SBP), Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM),
Associação de Diabetes Juvenil (ADJ), Associação Nacional de Assistência ao Diabético
(ANAD) e Federação Nacional do Diabetes (FENAD) discordam.
Em nota
no abaixo-assinado, as sociedades e associações se colocam à disposição para
auxiliar na análise dos efeitos da incorporação da nova insulina "sobre a
saúde e qualidade de vida das pessoas com diabetes, seus aspectos
farmacoeconômicos e no desenvolvimento de estratégias para melhorar a saúde de
pessoas com diabetes em nosso país".
Link para o abaixo-assinado: "Insulinas melhores para
crianças e adolescentes com diabetes do Brasil"
Nenhum comentário:
Postar um comentário