FONTE: Albenísio Fonseca – Repórter, TRIBUNA DA BAHIA.
Em 2015 foram registrados 68 casos na Bahia, um
crescimento de 44% em relação ao ano anterior
Com o
aumento da competitividade das empresas e o consequente crescimento de demandas
e metas, o ambiente de trabalho tem se configurado como um dos principais
agentes causadores de uma das doenças mais predominantes da atualidade: o
estresse.
Do
mesmo modo que o crescimento econômico mais intenso e sem que se possa dizer de
um paradoxo, a recessão e o surgimento das avançadas tecnologias de comunicação
são, também, causas da expansão recente dessa endemia.
Em
2015 foram registrados 68 casos de transtornos mentais na Bahia relacionados ou
causados pelo trabalho, um crescimento de 44% em relação ao ano anterior. O
Sinan-Sistema de Informação de Agravos de Notificação detectou que, entre os
principais sintomas estão depressões e ansiedades.
De
acordo com a Dra. Letícia Nobre, diretora do Cesat-Centro de Estudos de Saúde
do Trabalhador, instância da Sesab-Secretaria Estadual de Saúde, “demandas
dessa natureza compreendem diagnóstico difícil de ser feito no que tange à
referência com o trabalho”. Ela ressaltou que “o mais grave é a subnotificação
(falta de registros), estimada em 95% do total das ocorrências”, ou seja, “os
dados que dispomos constituem apenas a ponta do iceberg desses problemas”.
O
estresse ocupacional, ou o desequilíbrio entre as demandas do trabalho e a
habilidade ou possibilidade de cumpri-las, manifesta-se de forma mais notável
em alguns grupos específicos.Entre as categorias mais afetadas, a diretora do
Cesat relaciona bancários, comerciários, teleatendimentos (“verdadeiras
fábricas de produzir malucos”), industriários das áreas petrolíferas, químicas
e petroquímicas, além do setor de telecomunicações, inclusive
jornalistas.
A
diretora fez ver que os casos de atendimentos por Caps-Centros de Atenção
Psicosocial “envolvem mais demandas com esquizofrenias e psicoses, fatores
geralmente provenientes da infância, com atendimentos clínicos relacionados à
abordagem psiquiátrica clássica”.
Já
o Cesat desenvolve ações de vigilância com objetivo de promover a saúde
física e mental dos trabalhadores no estado. Depressão e risco de suicídio são
algumas das questões de saúde mental diagnosticadas com vinculações ao
trabalho.
“Funções
que exigem muito e sob cargas horárias intensas precisam ser revistas, mas não
são as principais causas. Com base no atendimento do Cesat, os relacionamentos
no ambiente de trabalho se mostram como principais geradores”, diz a médica do
trabalho, Suerda Fortaleza.
Segundo
ela, “têm sido atendidos, em média, três a quatro casos por semana, mas sob uma
demanda reprimida que aguarda em fila pela consulta”. Os registros, sob
notificação compulsória, são feitos pelo INSS, para trabalhadores celetistas, e
pelo Sinan, que é vinculado ao Ministério da Saúde, para todos os cidadãos.
Suerda
aponta a “falta de reconhecimento do adoecimento dos pacientes, como
decorrência do trabalho, nos postos de saúde, inclusive nos Caps, por
parte de médicos, psicólogos e psiquiatras, o que eleva a subnotificação”.
Conforme
a médica do trabalho, os transtornos mentais “acometem de forma equivalente a
homens e mulheres”. A incidência maior, por gênero, “está associada a ramos de
atividade, como nos casos de motoristas de ônibus, vítimas de assalto, com
estresse pós traumáticos, por exemplo, em que há predominância do masculino,
mas não há predileção”.
A
maioria dos que adoecem “está na faixa etária dos 40 aos 49 anos, entre as
pessoas que trabalham”. Ela cita a violência - seja externa ou por assédio
moral de chefes ou clientes - como “um dos fatores mais importantes na
ocorrência dos transtornos mentais”.
Citou,
ainda, a “falta de CAT-Comunicação de Acidente do Trabalho, por parte das
empresas”, e mencionou que, “em 2013, na Bahia, dos 556 casos reconhecidos de
transtornos, 301 foram por Nexo Técnico Epidemiológico ou seja, por peritos do
INSS”.
Depressão será maior causa de afastamento.
De
acordo com a OMS-Organização Mundial de Saúde, até 2020 a depressão será a
maior causa de afastamento do trabalho, no mundo. No Brasil a situação é
gravíssima e clama por atenção dos envolvidos.
De
acordo com informações colhidas junto ao site do Senado Federal, a depressão é
hoje a segunda causa de afastamento do trabalho no território brasileiro, só
perdendo para as LER-Lesões por Esforço Repetitivo.
Pesquisa
realizada pela UnB-Universidade de Brasília, em parceria com o INSS-Instituto
Nacional de Seguro Social, revela que 48,8% dos trabalhadores que se afastam
por mais de 15 dias do trabalho sofrem com algum transtorno mental, sendo a
depressão o principal deles.
Conforme
Maria Inês Vasconcelos – Advogada Trabalhista, especialista em direito do
trabalho e professora universitária, “a depressão passou a se
constituir em uma questão social, deixando de se encaixar como um problema
meramente corporativo, assumindo feições de verdadeira epidemia”.
Segundo ela,
“de acordo com o Art. 20 da Lei Nº 8.213/91, a depressão pode ser incluída como
doença profissional, desde que comprovado o nexo com o trabalho”. Isto quer
dizer que, “se demonstrado que foi o ambiente laborativo, com todas as suas
características nocivas, a plataforma disparadora da depressão ou o agravador
da patologia, em determinadas circunstâncias, o patrão pode ser declarado
culpado”.
Para a
advogada, “os prejuízos desses afastamentos e suas decorrentes
indenizações são incalculáveis, não sem considerar que a depressão é, por
sua natureza, uma patologia que tem nuances próprias, sendo a reincidência uma
de suas marcas”.
De
acordo com Maria Inês, “a depressão do trabalhador causa problemas de toda
ordem dentro de uma instituição, além de representar custos
elevadíssimos para o patrão, comprometendo de forma direta o resultado
financeiro da empresa”.
Além de
outros setores da economia, ela cita o exemplo dos bancos, dentre os
setores que mais produzem trabalhadores deprimidos: “os bancos brasileiros são
realmente máquinas de adoecimento, na medida em que levam seus funcionários ao
limite emocional e físico”.

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