FONTE: ***
, Claudia Nina -
Revista Seleções, https://www.msn.com/
Foi
uma semana bem dolorosa, o tempo mais difícil desde que havia tomado a decisão
acertada da separação – saia, não volte. Naquele momento foi fácil, três
palavras deram conta de uma sentença definitiva: SAIA, NÃO VOLTE. O tempo que
seguiu não foi fácil, pelo contrário, foi uma tormenta ter que olhar para os
objetos e móveis, as roupas que ainda restaram como se vestissem fantasmas.
O
movimento de fazer sumirem os objetos e os móveis foi lento. Não conseguia se
desfazer de tudo ao mesmo tempo, até porque a casa viraria um deserto total –
sem a pessoa dele e ainda sem os móveis. Aguentou. Mas as roupas se foram,
claro, e levaram junto os fantasmas vestidos.
Na
lenta decomposição da antiga casa, desmontou peça por peça como em um jogo de
quebra-cabeças ao contrário. Teria que desfazer a imagem que era o mapa onde
estava desenhada a figura de ambos.
Os móveis da casa eram os pedaços
que jamais se juntariam.
Livrou-se
do que mais a incomodava, o que lhe trazia lembranças das peças do
quebra-cabeças que ela queria desfazer, como a cristaleira e os lustres, o sofá
da sala, os armários que durante uma década acomodaram as roupas dos fantasmas
e, principalmente, uma poltrona onde ele sempre se sentava à noite.
Não
teria como se desfazer de todo o resto. O vazio poderia ser pior. Restaram
então algumas peças que, juntas, não formavam imagem nenhuma.
Até
que um dia percebeu. Sim, havia uma peça que precisaria sumir com urgência: a
cabeceira da cama! Como chegou a pensar que poderia continuar vivendo com o
ranger daquela cabeceira, que era uma peça-chave da imagem que desmontava?
Foi
então que ordenou o corte daquela cabeça definitivamente.
O
colchão ficaria livre e silencioso nas noites de paz.
Cortar
a cabeça, o ato final.
*** POR CLAUDIA
NINA – claudia.nina@selecoes.com.br

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