FONTE: Lais Rocio, Colaboração para o UOL, em Vitória (ES), http://noticias.uol.com.br
Era mais uma manhã na
Unidade de Saúde de Jardim América, em Cariacica, Espírito Santo, quando
Aurédio José do Couto perdeu a paciência. Em um ataque de fúria, o médico
chutou cadeiras e derrubou gavetas, e as imagens daquele 15 de maio ganharam as
redes sociais.
Uma semana depois, o
profissional diz não se arrepender, mesmo tendo sido afastado do trabalho pela
prefeitura e ter sido interrogado pela polícia, que apura danos contra o
patrimônio público. "O chute que eu dei naquelas duas cadeiras, elas vão
me desculpar. Mas elas ajudaram a população a reagir", disse ao UOL.
Segundo o médico, após
o vídeo ter viralizado, ele recebeu demonstrações de apoio de colegas e
pacientes. Sociedades médicas capixabas também se manifestaram contra a falta
de condições de trabalho no estado.
É
uma pena que eu não tenha tomado a decisão de brigar pela saúde antes. Mas isso
vai servir de aprendizado para muitas outras pessoas. Que Cariacica possa dar
esse exemplo para todos".
Aurédio
Couto, médico.
Há 46 anos na rede
municipal de Cariacica, cidade de 400 mil habitantes na Região Metropolitana de
Vitória, Couto conta que o estopim daquela manhã foi estar, mais uma vez, sem
local para atender os pacientes – a unidade de saúde passa por reforma.
"Fiquei um tempo
no balcão perguntando pelas salas e não sabiam onde me colocar. Os pacientes
vinham perguntar o que estava acontecendo, fiquei com vergonha da
situação", relembra os momentos antes de protagonizar as cenas que rodaram
o país.
"Já não tenho um
ambiente de trabalho meu quando chego, [nem] luminosidade. Não tenho
ventilador, sem falar no estetoscópio, no aparelho de pressão para que a gente
possa fazer o mínimo de atendimento", afirmou.
Revolta
de longa data.
Couto começou a
trabalhar na saúde pública como auxiliar de enfermagem, em 1971. Ele diz que o
descontentamento com as condições laborais não é de agora.
"Cariacica nunca
teve nada. Um exame de raios-x era difícil de conseguir, hoje já tem
ressonância magnética. Não tinha postos de saúde na periferia, e vários que
foram fundados já estão fechados hoje", diz o clínico geral.
"As coisas vão se
juntando, passei muito tempo discutindo, questionando e minha voz não era
escutada. Fundei aquela unidade de saúde, será que não sou capaz de denunciar
isso? Não chutei as cadeiras contra ninguém, não agredi ninguém", se
defende.
Segundo o médico,
profissionais e pacientes sofrem com falta de itens básicos e remédios. Ao UOL,
a Secretaria de Saúde de Cariacica nega a falta de medicamentos. A pasta também
diz que os materiais de trabalho estão no almoxarifado central da Saúde e devem
ser solicitados à supervisão da unidade.
Jornada
dupla.
Contratado para
trabalhar 30 horas por semana na unidade de saúde em que protagonizou as cenas
de quebradeira, Couto também é médico do trabalho em um consultório simples no
centro da cidade.
Antes, já havia sido
cirurgião e médico de atletas – sempre em paralelo ao cargo como servidor
municipal.
Em 1996 e no ano 2000,
Couto foi vereador na cidade pelo então PL (Partido Liberal). Agora, ele diz
não ter mais pretensões de disputar eleições. "Só entraria [na política]
se fosse em um movimento da sociedade civil organizada, com técnicos de todas
as áreas para fiscalizar como chegam e saem as verbas", diz.
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