Um estudo publicado na
sexta-feira (13) nos EUA chama atenção para um problema que nós, no Brasil,
devemos ficar de olho. Pesquisadores da Universidade da Califórnia e da
organização Kaiser Permanente descobriram que usuários problemáticos de álcool
têm 15% mais chances de serem medicados com benzodiazepínicos, drogas para
ansiedade que têm tarja preta. Esses remédios podem levar à dependência e causar
reações perigosas se misturados com bebida.
O Brasil é conhecido
como um dos maiores consumidores do mundo de benzodiazepínicos. De acordo com
relatório da Comissão Internacional de Controle de Narcóticos (INCB, na sigla
em inglês), divulgado em 2018, nosso país aparece em primeiro lugar na lista de
consumo de clonazepam (princípio ativo do Rivotril), bem como de outras drogas
ansiolíticas (para reduzir a ansiedade). Um estudo recente da Organização
Mundial da Saúde (OMS), por sinal, revela que somos "campeões" em
número de ansiosos. E o nosso consumo de álcool não é baixo: o Ministério da
Saúde diz que quase 18% da população adulta abusa de bebida alcoólica.
Sobre
a pesquisa.
Nos EUA, os
"benzos" (como são apelidados esses medicamentos) também estão entre
as drogas mais prescritas pelos médicos e mais abusadas pela população. O
estudo atual, publicado no American Journal of Managed Care, contou com dados
de 2 milhões de pacientes.
Do total da amostra, 4%
preenchiam os critérios para uso problemático de álcool. Isso significa, para
homens, beber pelo menos 15 doses por semana, e para mulheres, no mínimo 8
doses por semana (cada dose equivale a 1 lata de cerveja, 1 taça de vinho ou 1
shot de destilado). E 7,5% do total havia recebido pelo menos uma receita de
"benzo" no ano anterior – um número de prescrições bem mais alto que
o registrado entre abstêmios ou consumidores moderados.
Um detalhe importante é
que a equipe excluiu da análise aqueles pacientes que são medicados com
benzodiazepínicos para lidar com os efeitos da abstinência da bebida, algo que
não é raro no início de tratamentos contra o alcoolismo. Essas pessoas devem
ser sempre acompanhadas de perto pelos profissionais de saúde e pela família,
já que tanto o álcool quanto os ansiolíticos são depressores do sistema
nervoso. Um potencializa o efeito do outro, e se uma das doses for exagerada há
risco de morte por overdose.
Mistura
fatal.
Os pesquisadores
analisaram estatísticas do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) e
destacam que, entre 1996 e 2013, a proporção de americanos medicados com
benzodiazepínicos aumentou de 4,1% para 5,6%. A análise indica que mais da
metade dessas receitas são preenchidas por médicos de atenção primária, ou
seja, não por especialistas em saúde mental.
E aí vem um dado bem
preocupante: nesse mesmo período de sete anos, o número de mortes por overdose
envolvendo álcool e benzodiazepínicos saltou de 0,5 por 100 mil adultos para
mais de 3 por 100 mil adultos.
De acordo com as
informações do CDC, o uso de álcool esteve relacionado em uma entre quatro
consultas médicas que resultaram na prescrição de benzodiazepínicos, e também
em uma em cinco mortes relacionadas ao uso desses remédios.
O
que fazer?
É provável que muitos
médicos receitem esse tipo de droga sem saber que seus pacientes exageram na
bebida – muita gente tem vergonha de admitir isso. E quem sofre de ansiedade e
insônia (e por isso procura ao médico) pode ter uma tendência maior a abusar do
álcool, porque a bebida tem um efeito inicial relaxante.
Atualmente, a conduta
mais comum entre os psiquiatras é medicar pacientes com ansiedade com
antidepressivos, que são mais seguros e até mais eficazes para esses quadros,
apesar de levar um tempo para fazerem efeito. Os benzodiazepínicos são
reservados apenas para emergências ou situações específicas, e os pacientes
devem ser acompanhados com regularidade.
É importante alertar os
médicos sobre a necessidade de se investigar melhor o consumo de álcool entre
os pacientes antes de receitar essas drogas, e explicar os riscos da mistura.
Também é importante que os pacientes sejam honestos com o profissional de saúde
sobre o uso de bebidas e drogas – não há por que ter vergonha disso. Essas
informações podem ter impacto no diagnóstico e no tratamento da ansiedade, além
de evitar consequências graves.
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Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.


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