Você, homem, sente uma
dor e um aumento de volume em um ou nos dois testículos que irradia para a
virilha e piora no clima quente, quando passa muito tempo em pé ou se faz
esforços físicos? Fique atento: pode ser varicocele.
"Às vezes, por ser
tão desconfortável, pode ser um fator de afastamento do trabalho ou até de
certas profissões em que há exposição a fontes de calor, o que piora o quadro
da dor e pode levar até à infertilidade", explica Ricardo de la Roca,
urologista do Hospital São Luiz, em São Paulo.
Ao sentir esses
sintomas, é hora de consultar um especialista —e descobrir o que acontece. O
problema pode ser detectado após o urologista investigar a história clínica do
paciente e submetê-lo a um exame físico, que consiste em apalpar o cordão
espermático na bolsa escrotal e solicitar ao paciente encher o pulmão de ar e
fazer força como se fosse encher um balão.
"Se for notado um
refluxo de sangue nestas veias, com dilatação imediata, pode-se chegar a um
diagnóstico de varicocele", afirma De la Roca.
Para confirmar o
diagnóstico, o urologista pode solicitar ainda exames complementares.
"Deve-se fazer um ultrassom de escroto com doppler e um espermograma, para
ver se há alteração da produção de espermatozoides", acrescenta Christian
Fuhro, urologista da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo.
Por meio do ultrassom
com doppler, o médico pode medir o diâmetro dessas veias testiculares e registrar
o refluxo venoso no cordão espermático, além de avaliar um possível grau de
atrofia testicular, bem como, em casos mais duvidosos, detectar as áreas mais
quentes e que comprometem a bolsa testicular do paciente.
Já o espermograma
consiste em um exame onde o sêmen é colhido por meio de masturbação e vai ao
laboratório, onde se analisam características dos espermatozoides, como
capacidade de locomoção e vitalidade, por exemplo.
Caso seja comprovado um
quadro de varicocele, resta entender o que isso significa.
Varizes
bem lá?
Uma das grandes vilãs
da fertilidade masculina, a varicocele é a dilatação de um conjunto de veias
que drenam o sangue dos testículos. "São veias mais frágeis, doentes, como
varizes das pernas", explica Fuhro.
Este represamento de
sangue na bolsa escrotal eleva a temperatura local, igualando-se à corporal, e
como os testículos estão protegidos ali dentro e precisam se manter menos
aquecidos, a produção dos espermatozoides pode sofrer alterações.
"Essas alterações
correspondem a um número reduzido de gametas, variação na forma e velocidade de
progressão dos mesmos, acarretando infertilidade e com o tempo podendo causar a
atrofia da testículo", afirma De la Roca.
Mas calma! O urologista
Christian Fuhro observa que, em alguns casos, o indivíduo pode ter varicocele,
mas não alteração nos espermatozoides.
Quanto à incidência da
doença, pode ocorrer em ambos os testículos, mas o esquerdo é normalmente o
mais afetado. "Por uma questão de trajeto das veias: no lado esquerdo, a
pressão sanguínea acaba sendo mais alta. Já no lado direito, a pressão é
menor", comenta Fuhro. Porém, dependendo do volume de sangue represado em
um lado, o calor na bolsa escrotal pode atingir o outro testículo e afetar a
produção geral de espermatozoides.
Em torno de 20% dos
homens podem apresentar varicocele em maior ou menor grau. Nos pacientes
inférteis, o índice chega a 50% dos casos, sendo então diagnosticada na fase
adulta jovem, explica Ricardo de la Roca.
"Aparece
gradativamente com o passar dos anos e na adolescência torna-se perceptível.
Porém, se despercebida, só é diagnosticada quando o casal, após um ano de
tentativas para engravidar, não consegue", acrescenta De la Roca.
Defeito
em válvulas é causa principal.
Não existem hábitos que
possam contribuir para o aparecimento da varicocele. Entre as causas
principais, além de uma fragilidade natural desses vasos, tem a própria questão
anatômica.
"As veias que
drenam os testículos não possuem válvulas que impediriam o retrocesso do sangue
venoso, como normalmente ocorre com outras veias do nosso corpo, então quando
aumentamos a pressão venosa central, como por exemplo ao fazermos um esforço ao
tossir, o sangue venoso tende a refluir para os testículos, em maior ou menor
grau dependendo da dilatação destas veias", esclarece o urologista do
Hospital São Luiz.
O médico aponta ainda
outro problema: um defeito em válvulas que deveriam drenar o sangue: "O
ângulo da drenagem das veias espermáticas nas veias maiores, onde vão se
inserir, é o principal fator da varicocele, pois pode dificultar o retorno
venoso e, consequentemente, um volume maior de sangue acaba represado nestas
veias, que aumentam de calibre, promovendo uma dilatação do sistema
circulatório local", diz.
Já quando a varicocele
aparece de forma súbita no testículo direito, aumentando a pressão nos vasos, a
questão é outra. "De forma aguda pode estar relacionada a tumores
abdominais comprimindo a veia cava", diz Fuhro sobre a possibilidade da
presença de um trombo proveniente de um tumor invadir a veia responsável por
transportar o sangue venoso do abdome e dos membros inferiores para o coração,
causando obstrução da drenagem venosa do testículo direito.
"Por isso, quando
o problema surge mais tardiamente, deve-se investigar a presença de tumores
abdominais", complementa o médico.
Tratamento
varia de acordo com sintomas.
Nos casos de dor, o
tratamento recomendado pelos especialistas é clínico, ou seja, com medicações
que melhorem o tônus venoso. Além disso, pode ser necessária a colocação de um
suspensório escrotal, um tipo de cueca que funciona como uma bolsa para o
escroto.
Agora, se houver
deformidade anatômica ou infertilidade, o tratamento é cirúrgico. "É o
tratamento mais comum, onde após a abertura do canal inguinal (passagem no
interior da parede abdominal) e abordagem do cordão espermático é reconhecida a
veia espermática varicosada e dilatada, que é cortada e amarrada para não
ocorrer mais o refluxo do sangue venoso de cima para baixo", explica De la
Roca.
Em alguns casos, ainda
de acordo com De la Roca, pode-se também ocluir estas veias por meio de uma
embolização percutânea, isto é, um processo não cirúrgico, semelhante a um
cateterismo. Nesse caso é inserido um cateter que obstrui o retorno do sangue
desta veia espermática, fazendo-o fluir por outras veias não dilatadas, assim
não comprometendo a viabilidade do testículo.
Para evitar o
procedimento cirúrgico, que é relativamente simples, o importante mesmo é
detectar o problema o quanto antes.

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