FONTE: TRIBUNA DA
BAHIA.
Saiba mais sobre diagnóstico,
exames e tratamento.
“Eu
tinha vontade de me matar. Fiquei dois meses sem ir mais longe do que dois
quarteirões de casa. Eu achava que se fosse além disso ia me jogar na frente de
um carro. Era uma válvula de escape”. É assim que a dona de casa Dilssa Libério
Soares, de 35 anos, relembra a pior etapa de um momento delicado enfrentado
após o nascimento de seu segundo filho.
Sem
nunca ter sido diagnosticada oficialmente, 11 meses após o nascimento de Marcos
ela agora tem certeza de ter enfrentado e sobrevivido a uma depressão pós-parto
- e não é um caso isolado. Segundo uma pesquisa da Escola Nacional de Saúde
Pública, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), que entrevistou 23.896 mulheres
entre 6 e 18 meses após o parto, mais de uma em cada quatro brasileiras
apresenta sintomas de depressão pós-parto. O estudo ao qual a BBC Brasil teve
acesso e que será publicado no Journal of Affective Disorders analisou e
detalhou fatores por trás dessa estatística e foi liderado pela pesquisadora
Mariza Theme.
Para
ela, o trabalho representa um marco inédito nas pesquisas sobre o tema, ainda
muito cercado por preconceitos e estereótipos no país, inclusive por parte dos
médicos, que muitas vezes negligenciam a questão ao tratar suas pacientes. “É a
primeira vez que temos um estudo no Brasil com tantas mulheres distribuídas por
todos os Estados do país, e os resultados mostram que o número de mães que
apresentam sintomas está acima da média internacional”, explica.
‘Acima da média’.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a média de casos de depressão
pós-parto em países de baixa renda é de 19,8%. De acordo com o estudo da
Fiocruz, no Brasil o índice de mulheres com sintomas é de 26,3%, índice maior
do que o registrado também em países da Europa, além de EUA e Austrália.
Para
Mariza, a mensagem mais importante do estudo é a necessidade de que o governo
monitore o problema no pré-natal e após o parto. “Sem ter essa questão
incorporada de fato e de forma sistemática à rotina do SUS, essas mulheres não
são identificadas, e portanto não são tratadas. Estão soltas por aí, sofrendo
com um problema que pode ter reflexos no desenvolvimento da criança e na saúde
das mães”, explica.
“Nosso
trabalho vai ser lutar junto ao Ministério da Saúde para que as mulheres sejam
testadas para depressão pós-parto e acompanhadas. Qualquer profissional da
saúde pode aplicar o questionário e fazer a triagem, não é obrigatório que seja
um psicólogo ou psiquiatra”.
Para o ginecologista e obstetra Alexandre Faisal, professor
da Faculdade de Medicina da USP no Departamento de Medicina Preventiva e um dos
maiores pesquisadores da área no Brasil, o país ainda não tem políticas
públicas suficientes.
“Estudo depressão antes, durante e depois da gravidez há mais de 15 anos no Brasil e acredito que não temos políticas públicas adequadas. Esta é uma das lutas mais antigas de pesquisadores e médicos da área: a inclusão do rastreamento específico para depressão pós-parto nas rotinas do SUS”, diz.
Diagnóstico, exames e tratamento.
“Como você tem se sentido nos últimos 15 dias? Deixou de
ter prazer em alguma atividade que fazia naturalmente? Como está seu sono, seu
dia a dia? Você tem se sentido infeliz, ansiosa ou preocupada sem uma boa
razão? Tem se sentido infeliz a ponto de chorar?”, são algumas das questões que
integram a Escala de Depressão Pós-Parto de Edimburgo, usada na pesquisa da
Fiocruz.
“Assim como se mede a pressão e são feitos exames, é preciso avaliar o emocional das gestantes. A segunda questão é estudar medidas para tratar o problema. Para onde vamos encaminhar essas mulheres?”, questiona Faisal, apontando para a necessidade de criação de uma rede com psicólogos e psiquiatras capacitados.
“Assim como se mede a pressão e são feitos exames, é preciso avaliar o emocional das gestantes. A segunda questão é estudar medidas para tratar o problema. Para onde vamos encaminhar essas mulheres?”, questiona Faisal, apontando para a necessidade de criação de uma rede com psicólogos e psiquiatras capacitados.
Questionado
pela BBC Brasil, o Ministério da Saúde disse que há atenção para o assunto e
que oferece atendimento integral e gratuito às gestantes nos períodos pré-natal
e pós-parto nas Unidades Básicas de Saúde.
De
acordo com a nota enviada, os profissionais que acompanham a mulher “têm
capacitação e qualificação para identificar, a qualquer momento, sinais de
sofrimento mental e possíveis mudanças de comportamento para intervir da melhor
forma possível. Entre as estratégias adotadas está uma entrevista com a mulher
em sala reservada com questionário específico que identifique depressão”.
O
ministério também cita a criação da Rede Cegonha, em 2011, que prioriza o parto
normal e visa proporcionar “saúde, qualidade de vida e bem-estar na gestação,
parto, pós-parto e o desenvolvimento da criança até os dois primeiros anos de
vida”. A nota não deixou claro se existe ou não a rotina específica e
sistemática recomendada pelos pesquisadores e especialistas, já em uso no Reino
Unido e na Austrália e atualmente em discussão nos Estados Unidos, de acordo
com recomendações da Academia de Ginecologia e Obstetrícia americana.
Fatores, classe social e demandas.
O
estudo da Fiocruz detalhou um perfil e uma série de fatores que podem ajudar a
explicar quem são as mulheres mais propensas a desenvolver o problema.
Segundo
Mariza Theme, a maioria das mulheres que sofre com depressão pós-parto no
Brasil tem em média 25,6 anos (embora a faixa etária das entrevistadas tenha
variado de 12 a 54 anos), é da cor parda, de baixa condição socioeconômica, com
antecedentes de transtorno mental, hábitos não saudáveis e em geral já tiveram
mais filhos antes e não planejaram a gravidez.
Do
total de mulheres que apresentaram sintomas de depressão, 20,5% estavam na
primeira gestação, 30,6% na segunda, e 39,8% na terceira.
Um
fator decisivo, segundo o estudo, é a classe social. “A mulher com melhores
condições socioeconômicas também enfrenta muitas dificuldades, mas quando
diagnosticada com depressão pós-parto pode recorrer com mais facilidade ao
tratamento psicológico. As mais pobres já têm ambientes mais hostis e menos
acesso a ajuda especializada”, diz Ana Lúcia Keunecke, fundadora da ONG
Artemis, de combate à violência contra a mulher.
Ana diz
que o assunto ainda é tabu entre as mulheres, que se sentem muito culpadas com
a pressão social e muitas vezes sofrem sozinhas.
Um dos
objetivos principais da organização é combater a violência obstétrica, item
também avaliado pela pesquisa da Fiocruz.
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