FONTE:
, Ricardo Caponero, oncologista***, https://www.msn.com/
Quem
tem um diagnóstico de câncer não consegue pensar em sexo. Esse é o primeiro problema que afeta a sexualidade de
grande parte dos pacientes. Angústias relacionadas ao diagnóstico, à possível
evolução da doença e ao receio dos eventos adversos do tratamento ocupam os
pensamentos durante o dia e tiram a vontade e a concentração em outras
atividades. Isso vale para a vida sexual, mesmo quando
entendemos a sexualidade e a sensualidade como algo que vai muito além do
intercurso sexual.
Além
das preocupações e das repercussões emocionais, a própria imagem corporal pode
ser afetada em situações comuns aos tratamentos, como uso de sondas, drenos e
curativos, queda de cabelo, feridas, enjoo, diarreia etc. Todos esses efeitos
colaterais podem prejudicar a expressão da sexualidade.
O
parceiro sexual, convivendo com as dificuldades do paciente em tratamento
oncológico, pode se afastar (mesmo estando presente) e evitar tocar no assunto
para que isso não pareça uma “cobrança”, justamente num momento em que o outro
não está bem. Só que esse silenciamento, para quem já não
se sente atraente e está com outras preocupações, afasta o diálogo sobre a
sexualidade. E a intimidade é preenchida pelo silêncio.
Os
tratamentos utilizados também podem comprometer diretamente o desejo sexual —
isso acontece, por exemplo, com as terapias hormonais para tumores de mama e
próstata. Já certos medicamentos empregados na quimioterapia podem ficar
presentes em secreções por até 72 horas após a administração, implicando na
necessidade de cuidados. Da mesma forma, certos procedimentos cirúrgicos
limitam temporariamente as atividades sexuais.
Sim,
podem aparecer muitos problemas, mas o maior deles é deixar que sejam vistos
como "normais" nessa fase da vida e, por consequência, ignorados. Tanto
no dia a dia do casal como nas consultas
médicas, onde assuntos "mais importantes" sobre a doença e o
tratamento ocupam a cena. A falta de diálogo entre os parceiros se estende aos
profissionais. Tudo fica no terreno do não dito. Não deveria ser assim.
Novas
opções terapêuticas e intervenções precoces tornam a cura do câncer cada vez
mais provável e, mesmo quando isso não é possível, prolongam o tempo de vida
após o diagnóstico para a maioria dos pacientes. No entanto, muitos dos
"sobreviventes" acabam tendo que conviver com as sequelas e
limitações impostas pela doença e o tratamento.
Mais
da metade dos pacientes não recupera sua sexualidade após o câncer ter
desaparecido.
Mas
há solução para esse cenário. Ela começa com a discussão do assunto junto aos
profissionais e à equipe multidisciplinar que assistem ao paciente e sua
família. Se ninguém traz o problema à tona, nenhuma saída é apresentada.
O diálogo
sobre a sexualidade ainda esbarra em preconceito, na formação
inadequada dos profissionais e na dificuldade que se tem em falar sobre sexo no
consultório, ainda mais em uma época que preza pela pluralidade ao mesmo tempo
em que pede cautela para certas abordagens não soarem a assédio.
A
solução é sempre a conversa franca, séria, gradual e que, se não partir do
profissional, deve partir do paciente. Só trazendo luz para o problema é que
construiremos soluções.
*** Ricardo Caponero
é médico oncologista do Centro Especializado em Oncologia do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, em São Paulo.

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