FONTE:
Claudia Nina - Revista Seleções, https://www.msn.com/
Imaginava
que seria fácil. Ele já estava doente havia muito tempo, imerso em uma quase
escuridão. Faltava um nada para que soltasse a pipa, alma de papel, que voaria
ao infinito, enquanto os enfermeiros cuidariam do peso morto. Quantas foram as
vezes em que ela refez a teoria da “pipa” para ensaiar a partida e estar pronta
no dia em que se levantasse para o adeus. Só que não existe ensaio para a
despedida, e o dia chegou de repente. Sempre é de repente quando se morre.
Ela
suportou os primeiros momentos da partida com poucas lágrimas equilibradas e
repetia o bom senso da conversa formal de que “foi melhor assim”, “já estava
cansado”, “está em um lugar melhor”. Estava a ponto de acreditar em tudo
quando, passando pela área onde ficam a máquina de lavar e o tanque, deu de
cara com um par de chinelos e um par de tênis. O chinelo ele usava desde que
ficou doente, sempre de meia; o tênis era o que tinha comprado há tempos, e
exibia o conforto – “Muito confortável, foi caro, mas valeu a pena”.
A
voz distante ecoava pelos cômodos, era tridimensional a lembrança sonora. Tudo
porque ela bateu os olhos naqueles calçados vazios – teria coragem de se
desfazer deles algum dia? Por que não pediu que as cuidadoras os levassem? Era
tanta coisa das quais precisaria se livrar... A vingança dos objetos era só o
começo. Quem disse que seria fácil?
Ensaiar o voo da pipa da alma não
serviu de nada.
Desviou
com força o olhar dos calçados e foi para dentro. Apagou a luz daquela parte da
casa. Melhor assim. Ia passando pelo corredor para ir direto ao seu quarto, que
ficava nos fundos, mas não resistiu e entrou no quarto do meio: o dele.
Acendeu
a meia luz do abajur e, na mesa, deu de cara com a fileira dos remédios, a
carteira, os óculos, o celular... Os objetos organizavam a vingança
imprevisível – a dor maior é ver o que se deixou, o material de uma existência,
a parte âncora de um barco que partiu. Foi então que desabou e chorou, sozinha,
naquele quarto semiapagado, tudo o que não havia chorado em público. A cada
novo objeto que encontrava na estante ou dentro das gavetas ela renovava o
choro eterno. A vingança dos objetos era cruel.
Ficou
ali durante horas. Até que conseguiu se desprender da proa e saiu do quarto –
era preciso deixar naufragarem os objetos, ela não poderia guardar aqueles
restos que doíam. Apagou a luz, mais um cômodo escuro na casa.
Foi
para seu quarto sem coragem de acender a luz e deparar com mais algum objeto
vingativo. Ficou no escuro, elevou o pensamento na tentativa de se lembrar da
pipa, alma de papel, em seu voo silencioso, leve e desancorado.
POR CLAUDIA NINA –
claudia.nina@selecoes.com.br Ouça o episódio mais novo do podcast da Claudia
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