Há quase um ano, Lídia
Pereira dos Santos, de 44 anos, busca familiares de vítimas de feminicídio na
Baixada Fluminense. O objetivo é criar uma rede para cobrar investigação e
justiça para as vítimas. Lídia conhece bem a dor de perder alguém para a
violência. Há 11 meses, sua irmã, Luciana Pereira dos Santos, foi morta, aos 38
anos, com um tiro na cabeça disparado pelo então companheiro, Elias Almeida,
que se entregou dias após o crime e aguarda julgamento.
Luciana foi uma das 84
vítimas de feminicídio no estado do Rio de Janeiro em 2019. Moradora de
Queimados na época, foi também uma das 23 mulheres mortas na Baixada
Fluminense, região que compreendeu 27,4% dos casos de feminicídio no estado em
2019. Os dados são do boletim Feminicídios e a Política de Segurança Pública na
Baixada Fluminense, elaborado pela Iniciativa Direito à Memória e Justiça
Racial (IDMJR), com base nos dados do Instituto de Segurança Pública.
— Com essa rede, quero
conscientizar a população da importância da denúncia para que essas mulheres possam
lutar pela suas vidas e não sintam vergonha. Elas não têm culpa de nada. Se em
algum momento, um vizinho tivesse ligado e denunciado as brigas e os tiros
disparados por ele após as discussões, talvez a polícia o desarmasse e minha
irmã poderia estar viva — afirmou Lídia.
Luciana e Elias estavam
juntos há um ano e sete meses. As brigas eram constantes. Todas motivadas,
segundo familiares da vítima, pelo ciúme excessivo de Elias. Testemunhas
relataram que, durante as discussões do casal, ele sempre atirava para o alto.
No madrugada do dia 12 de abril, o alvo do disparo foi a cabeça de Luciana. De
acordo familiares, só foi possível encontrar Luciana caída no chão depois de
arrombar a porta de sua casa, já que a porta estava trancada. Ela chegou a ser
socorrida, mas não resistiu.
— Os vizinhos contavam
que, nas brigas, ela pedia que ele fosse embora, mas ele respondia que só iria
se deixasse ela morta. Mas só ficamos sabendo depois. Acho que a denúncia é
essencial nesses casos. Brigas constantes podem resultar em morte — ressalta
Lídia.
Ainda segundo
informações do estudo, as tentativas de feminicídio na Baixada triplicaram ano
passado em comparação a 2018, passando de 22 para 74 casos.
Além dos dados sobre
feminicídio, a pesquisa da IDMJR destaca outros índices relacionados à
violência contra a mulher. Segundo o estudo, em 2018, foram registradas 29 mil
ocorrências de violência contra as mulheres, um aumento de 18% em relação ao
ano anterior. Do total, 38,8% foram casos de violência física; 31,3% de
violência psicológica; 20,5% de violência moral; 5% de violência sexual e 4% de
violência patrimonial.
— Devido às lógicas de
poder e domínio do patriarcado nos corpos femininos, as mulheres estão sempre
vulneráveis à violência exercida pelos homens, seja na agressão verbal, ataques
psicológicos, agressões físicas e até mesmo a morte. A certeza da impunidade e
a descartabilidade do corpo feminino, somado a um discurso de ódio e ao
crescimento da militarização da vida, leva as mulheres a serem uma das
principais vítimas da violência urbana — avalia Giselle Florentino,
coordenadora da Iniciativa Direito à Memória e Justiça Racial.
Outro destaque é o
número de mulheres negras que sofreram violência na Baixada em 2018: 61,4%. Em
geral, segundo o boletim, o perfil das vítimas na Baixada é de mulheres negras,
de 30 a 59 anos e com baixa escolaridade. Em 50% dos casos, os agressores são
companheiros e ex-companheiros. A maior parte dos casos de feminicídios e
violência não chega a ter registros oficiais.
A atuação das milícias
também aparece nos dados, que apontam um aumento nos casos de feminicídios em
territórios dominados por esses grupos. Atualmente, Belford Roxo lidera o
ranking da morte de mulheres na Baixada, com 35% dos casos.



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