Estamos no “vazio” no
que se refere a políticas de prevenção a drogas no Brasil. A conclusão é de uma
auditoria, divulgada
recentemente pelo Tribunal de Contas da União (TCU)), que
aponta uma série de falhas de planejamento nos últimos anos.
Dntre os diversos
problemas apontados pelo TCU, o que me chama mais atenção é a ausência de uma
abordagem sobre o tema nas escolas. Havia a determinação de incluí-lo no
currículo dos cursos de ensino superior e magistério, e também no currículo
escolar. Mas todas essas promessas ficaram no limbo.
O decreto 7.179/2010
previa capacitar 210 mil educadores em quatro anos, mas foram ofertadas somente
176 mil vagas. Segundo o TCU, não foi demonstrado que esses profissionais
concluíram o curso. Mesmo se tiverem concluído, esse total representa apenas 7%
do universo de 2,5 milhões de professores em atuação no país. O documento
menciona que, nesse ritmo, seriam necessários 57 anos para que todos os
educadores fossem preparados para orientar seus alunos corretamente sobre o uso
indevido de drogas.
A gente sabe que, em
muitas comunidades, os professores têm receio de falar sobre drogas em sala de
aula. Sem um suporte direto do poder público, e, claro, sem conhecimento
metodológico, não há como fazer isso. Muitas vezes, os professores passam mais
tempo com os jovens do que os pais. Dessa forma, costumam ser os primeiros a
perceber mudanças de comportamento. Essa habilidade, somada à boa comunicação
dos docentes com as famílias, pode mudar o destino de um jovem.
Segundo o TCU, ao ser
abordado o Ministério da Educação alegou que a prevenção ao uso de drogas é
algo que faz parte do Programa Saúde na Escola (PSE), ligado ao Ministério da
Saúde. O PSE prevê visitas das equipes aos estabelecimentos para falar de
diversos temas, como obesidade, drogas, saúde bucal e prevenção de ISTs, entre
outros. Mas a única ação obrigatória, pelo que foi apurado, era a educação
sobre o mosquito da dengue.
Ainda que houvesse
algum evento paralelo nas escolas para falar sobre os riscos oferecidos pelas
drogas, não faz sentido que um tema tão importante seja discutido sem o
envolvimento direto dos professores, que são os profissionais que estão todos
os dias com os alunos. Sem um programa consistente no currículo, também é
impossível preparar os adolescentes para lidar com as tentações que, sem dúvida
nenhuma, vão aparecer nas baladas e na convivência com os colegas.
Eu vou além, e digo que
é preciso priorizar muito mais a questão do álcool com os estudantes. Segundo o
IBGE, o percentual de jovens que usaram drogas ilícitas passou de 8,7% para 9%
entre 2009 e 2015. Já a proporção de adolescentes que havia ingerido álcool, em
2015, foi de 55,5%. Essa droga lícita está na casa de todo mundo, e não é
incomum que seja oferecida aos jovens pelos seus próprios familiares. Se você
passou perto de algum bloco no último Carnaval, com certeza viu uma porção de
gente fazer coisas que jamais pensaria em fazer em público se não estivesse sob
efeito do álcool.
Uma análise recente
divulgada pelo Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (Cisa) revela que o
número de internações e mortes de pessoas com mais de 55 anos por causa do
consumo de bebida aumentou 6,9% e 6,7% no período de 2010 a 2016. Os danos da
substância ao organismo, assim como a dependência, são algo que não acontece de
um dia para o outro. Um programa de prevenção que não leve em conta a educação
nas escolas jamais será eficaz. A consequência pode ser um buraco sem fundo nos
cofres públicos, que já estão minguados.
O TCU deu o prazo até
1º abril para que o Ministério da Justiça envie o Plano Nacional de Políticas
sobre Drogas. Vamos torcer para que algo de concreto seja feito para
conscientizar os jovens não só sobre os danos das drogas ilícitas, mas também,
e principalmente, sobre os riscos de se abusar de substâncias de mais fácil
acesso, como bebida alcoólica.


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