A
figurinista Susllem Tonani, que acusou o ator da TV Globo José Mayer de assédio
sexual voltou a escrever na madrugada desta sexta-feira no blog do jornal Folha de S.Paulo ‘AgoraÉQueSãoElas’, o mesmo no qual publicou o primeiro relato das
investidas que duraram oito meses e contaram com diversas cenas constrangedoras
do galã global contra ela.
Mayer
havia sido acusado de assediar Susllem durante as gravações da novela A Lei Do Amor, em caso que
gerou repercussão nacional. Pouco depois, o ator assumiu o erro em comunicado
oficial.
Sexta-feira
passada, o colunista Leo Dias publicou em sua coluna no jornal O Dia, uma informação
que seria uma “reviravolta” no caso da denúncia de assédio da figurinista Su Tonani contra o ator. Segundo
o texto, ambos já tiveram um relacionamento em tempos passados, nos quais ele era
comprometido, mas ela não. Relata que chegavam juntos ao Projac no mesmo carro
e ela guardava a chave do automóvel.
Leia
o texto publicado nesta madrugada por Su Tonani:
“Não,
eu não fui amante de José Mayer.
Declaro
que não fiz acordo com nenhuma parte envolvida e muito menos recebi algum
dinheiro.
Não
fui demitida da Rede Globo. O meu contrato, como o previsto, se encerrou com o
final da novela.
Declaro
que não retirei queixa contra José Mayer pelo simples fato de que nunca a fiz.
Eu
fui vítima de assédio sexual. E agora das especulações que colocam dúvidas
sobre a minha dor. E me fazem revivê-la.
Em
31 março de 2017, depois de oito meses sendo assediada pelo ator José Mayer,
depois de ter levado minha denúncia de assédio às instâncias de poder ao meu
alcance e não ter encontrado justiça, depois de ver o medo dos colegas de
testemunhar o que viram, sentindo que não tinha mais a quem recorrer, decidi.
Sem nenhum outro recurso à minha disposição, optei por tornar pública minha
denúncia no blog feminista #AgoraÉQueSãoElas. Um espaço que me acolheria.
Mas
não pensem que foi uma decisão trivial. Ela foi recheada de medo.
Sabe
por que dá tanto medo de delatar um abuso?
Porque
nossa cultura machista culpa a mulher, a vítima, pela violência vivenciada. É
isso que corre as redes. É o que passa pelo boca a boca. É o que passeia por
nossos aplicativos de relacionamento. É o que é impresso nos jornais. A
história da mulher sedutora, agora passional e vingativa. Da mulher que
mereceu. Da amante rejeitada.
Essa
é a história que o mundo machista gosta de contar. E que nos acostumamos a
aceitar como versão mais plausível. Saiba: essa prática nos desempodera. Nos
revitimiza. E neste momento é como me sinto. Me sinto vítima novamente.
Vítima
de quem, agora?
Vítima
de profissionais exibicionistas. Vítima da narrativa produzida por tabloides
irresponsáveis, das versões misóginas da violência que vivi que tornam suspeito
meu gesto de denúncia, bem como a sororidade das que me apoiaram. E tenham
certeza: estou sendo revitimizada pelo machismo que tenta me enfraquecer, me
roubar a coragem de lutar. Mas cada vez que o conteúdo que questiona minhas
razões é compartilhado, não sou só eu que estou sendo subjugada. Toda vítima
está sendo coagida. Reprimida. Oprimida. Todas as que ainda não se
manifestaram, em qualquer contexto, no país todo, duvida de si. E cogita seguir
calada.
Dentre
as intimações que recebi do delegado havia a informação de que eu estaria
cometendo crime de desobediência por não depor. Como se neste tipo de crime a
decisão de abrir um inquérito é exclusiva da vítima? Se eu assim quisesse, o
ideal não seria uma delegada? Temos as delegacias de atendimento às mulheres para
isso, não?!
Me
sinto interrogada inescrupulosamente, incessantemente. Mesmo sem prestar queixa
nenhuma. Quantas vezes terei de pedir para respeitarem o meu 'não'? E quantas
não se identificarão tristemente e optarão pelo silêncio ao ver o escrutínio
sob o qual me vejo agora?
Sinto
que a minha história teve começo, meio e fim. Terminou na terça à noite, 4 de
abril de 2017, com um pedido de desculpa da Rede Globo e uma carta de confissão
do José Mayer, ambos lidos no Jornal Nacional. Senti que tive a justiça que
desejava. Pouco creio que a punição criminal para o meu caso tenha alcance
maior do que já tivemos. Mais potência. Seja mais transformadora.
A
clara sensação que tive após a publicação do meu relato, genuinamente acolhido
pelas feministas foi: a minha coragem trouxe vida às memórias de
abusos enterrados pelas mulheres no fundo do que são. Como já vimos acontecer
com o #PrimeiroAssédio. Foi como se meu grito tivesse acordado a dor de outras.
Foi como se o meu grito tivesse se tornado o de todas nós. Isso empodera. Mas
assusta.
O
meu objetivo ao expor a minha historia foi sair da invisibilidade, romper o
silenciamento imposto, transcender este lugar de vítima que me era
insuportável. Sou apenas uma profissional, que cansada de ser desrespeitada,
lutou pelo que acredita. Por que incomodou tanto o meu silencio pós-relato?
Talvez porque eu não tenha cumprido o papel da oportunista exibicionista que o
patriarcado esperava. Talvez porque não tenha sido a liderança, o exemplo que
queriam que eu fosse. Desculpe desapontar estas e estes.
Em
circunstancias diferentes da minha, é claro que o mais apropriado é um processo
criminal e cível. Estimulo sim, todas as mulheres a levarem seus casos às
autoridades, demandarem a devida atenção e buscarem a aplicação da lei. Mas acredito
que obtive a justiça que queria e me sinto contemplada. Tive meu desejo
desrespeitado uma vez. Isso me fez vítima. Quero deixar de sê-lo e seguir. Será
que dessa vez minha vontade será respeitada?
O
silêncio. É o que eu quero. Não o silenciamento coercitivo. O silêncio que eu
escolho. A minha vida de volta. Qualquer versão diferente da que eu emiti neste
mesmo blog e da que emito agora é mentirosa. E essas mentiras ferem, não só a
mim, mas a todas as mulheres que batalham por sua voz. Queremos falar e calar
quando bem entendermos. Nos concedam esse direito.
A
minha história é a história de uma mulher jovem que não aceitou o assédio de um
homem com mais poder que ela. Neste caso, o ator rico e famoso. O Brasil não
está acostumado a lidar com este tipo de história. Eu sei. Mas não barateiem a
minha história. Até porque ela é de muitas de nós.
Movemos
um pouco a estrutura. Agora é segurar o rebite. O revés machista que deseja nos
manter nos velhos lugares submissos de sempre. Me sinto vitoriosa. Fizemos grande
porque fizemos juntas. Fui ouvida. Fomos. Somos muitas. Demonstramos força. E
torço com tudo de mim que saiamos deste ciclo mais confiantes que sim, é
possível mudar. Empresas começaram a repensar os protocolos nos casos de
assédio. Homens descobriram que o mundo mudou. Falamos de assédio em espaços de
poder antes impermeáveis a este debate.
Me
orgulho de ter contribuído como pude para isso. E agora quero seguir.
Reservo
a mim o direito de encerrar esse assunto. Chego ao final da minha jornada.
Estou no limite da minha capacidade emocional de seguir na linha de frente
dessa luta. Peço que respeitem os meus limites. Violados anteriormente, quando
tudo isso começou. Outras podem assumir a frente dessa luta. E eu me comprometo
a sempre apoiá-las, assim como fui apoiada por tantas.”


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