Os olhos são uma das
principais portas de entrada do coronavírus responsável
pela pandemia e sua transmissão também pode ocorrer pelo contato com a lágrima
de uma pessoa infectada. Segundo a Academia Americana de Oftalmologia,
o novo vírus causa conjuntivite em 1 a 3% dos indivíduos
contaminados e, em certos casos, essa doença é o primeiro sintoma da Covid-19.
Estudos recentes, como
um liderado por oftalmologistas da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp)
e publicado na revista científica The Lancet, apontam que o Sars-CoV-2 ainda é capaz de lesar
a retina, onde ficam as células que enviam a
informação que gera a imagem no cérebro, e a úvea, conjunto de
estruturas que inclui a íris, a parte colorida do olho. Mais: o agente
infeccioso pode inflamar a córnea e ressecar os olhos.
Tudo isso reforça a
importância de usarmos máscaras ou face
shields, lavar corretamente e com frequência as mãos, evitar tocar o rosto
e, no caso de usuários de óculos e lentes de contato, fazer a higiene adequada
e diária desses acessórios. São medidas que reduzem o risco de contágio.
Na conjuntivite, os
sintomas são vermelhidão, coceira, sensação de areia e ardência nos olhos,
lacrimejamento e sensibilidade à luz. A forma viral é altamente contagiosa e,
se não for tratada por um oftalmologista, há risco de provocar úlcera na córnea
e danos graves à visão. Seja qual for a origem, é imperativo não se
automedicar.
Outro problema de visão
na pandemia decorre de um comportamento acentuado com o isolamento
social: passar horas diante de telas. Esse hábito deixa o olho
seco, irritado e cansado, sinais que costumam vir acompanhados de dores de
cabeça. Isso acontece porque, normalmente, piscamos de 15 a 20 vezes por
minuto. No entanto, diante de um monitor ou do celular, as piscadas são menos
frequentes: apenas duas ou três vezes por minuto, diminuindo assim a
lubrificação natural.
Se for inevitável usar
as telas, a dica é sentar-se a uma distância de pelo menos 65 centímetros do
computador e posicionar o monitor um pouco para baixo. E reduzir o brilho
iluminando o ambiente. Lembre-se de piscar mais e faça intervalos a cada 20
minutos, olhando para outro objeto, pelo menos a seis metros de distância, por
20 segundos. E pingue lágrimas artificiais, se necessário.
O excesso de telas na
pandemia também pode desencadear ou agravar a miopia,
principalmente em crianças. No míope, a visão de perto é boa, mas embaça para
enxergar de longe. Ocorre quando o comprimento do olho é maior que o normal, a
córnea é muito curva ou o cristalino tem formato, espessura ou posição
anômalas.
Com mais pessoas em
casa por causa da Covid-19, também há um maior risco de traumas oculares
devido a acidentes domésticos. Para ter uma ideia, nos Estados Unidos, 52%
das emergências oftalmológicas envolvem crianças.
Lápis no olho, brinquedos que disparam, arranhão de gato ou cachorro e
queimadura por produtos químicos estão entre os motivos mais comuns de lesões
oculares.
A maioria dessas
situações pode ser evitada com medidas simples. É preciso manter as crianças
afastadas de objetos perfurocortantes, produtos de limpeza e medicamentos, e
fora da cozinha, da área de serviço e do banheiro, caso não haja um adulto por
perto. Quinas de mesas e móveis podem ser protegidos com adesivos acolchoados.
No inverno, além da
atenção com o contágio pelo Sars-CoV-2, devemos nos precaver contra
outras doenças respiratórias que,
de alguma forma, têm repercussão nos olhos. Pessoas que sofrem de rinite alérgica,
por exemplo, costumam coçar os olhos. E isso é perigoso, porque pode danificar
a córnea e levar ao ceratocone, doença grave que geralmente se manifesta na
puberdade e, sem tratamento, oferece risco de perda de visão.
A
pandemia e o atendimento com o oftalmo.
A oftalmologia tem sido
a especialidade médica mais atingida na pandemia, no que diz respeito à queda
no número de consultas, exames e cirurgias. Há uma perda de volume estimada em
81%, ao comparar os períodos de março e abril de 2019 aos de 2020, com base em
dados da National Patient and Procedure Volume Tracker Analysis,
nos Estados Unidos. Outras análises confirmam esses números, e no Brasil
lidamos com o mesmo cenário.
O índice se explica
porque o grande movimento em oftalmologia não é de emergência e a maioria dos
pacientes é de idosos. Dessa forma, sofremos dois impactos da Covid-19 na saúde
dos olhos: direto e indireto. O primeiro se dá pelo acometimento do vírus, e o
segundo, pela falta de acompanhamento e tratamento de doenças.
No SUS, a principal
demanda de cirurgias eletivas é de catarata (primeira
causa global tratável de cegueira), e certamente com o coronavírus essa fila de
espera aumentou. Igualmente por causa da quarentena, os transplantes de córnea
estão paralisados. Bem como está dificultada a prevenção do glaucoma (decorrente
do aumento da pressão intraocular e causa número 1 de cegueira irreversível),
de danos à retina devido ao diabetes mal controlado (retinopatia diabética)
e da degeneração macular, que destrói a visão central.
Portanto, mesmo na
pandemia, é preciso preservar a visão. Em virtude do necessário de isolamento
social, clínicas e hospitais de oftalmologia suspenderam seus serviços. Mas
agora retornam às suas rotinas em algumas cidades do país, seguindo os rígidos
protocolos de segurança elaborados pelo Conselho
Brasileiro de Oftalmologia (CBO) para pacientes e
todos os envolvidos nos atendimentos, nas consultas e nas cirurgias.
O Brasil tem atualmente
1,2 milhão de cegos e mais de 6 milhões com alguma deficiência visual. Contudo,
em 80% dos casos, a doença ocular poderia ter sido evitada com diagnóstico e
tratamento precoces. Por isso, não negligencie a saúde dos seus olhos!
***
Dr. Bruno Machado Fontes é oftalmologista, diretor das Clínicas
Lúmmen Oftalmologia (empresa do grupo Opty),
presidente da Associação
Brasileira de Catarata e Cirurgia Refrativa e
coeditor da Revista Brasileira de Oftalmologia.


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