FONTE: *** Jairo Bouer, https://doutorjairo.blogosfera.uol.com.br
Você já pode ter se perguntado, alguma vez, se não estava sendo
"paranoico" ao desconfiar que alguém poderia estar fazendo algo só
para te prejudicar. Ou provavelmente já usou esse termo para se referir a
alguém. Exageros à parte, esse tipo de sensação, que é importante para a nossa
defesa e sobrevivência, muitas vezes gera conflitos desnecessários e doentis.
A paranoia intensa pode ser sintoma de alguns transtornos mentais, como a
esquizofrenia, ou de personalidade. Indivíduos diagnosticados com o transtorno
de personalidade paranoide, além de suspeitar sempre da fidelidade dos outros,
costumam guardar rancor, reagir com raiva, e ter resistência para se abrir com
os outros, inclusive profissionais de saúde. Essas características também podem
aparecer em outros transtornos, como os de personalidade antissocial,
borderline ou narcisista. Qualquer que seja o caso, essa suspeita constante
traz enormes prejuízos para os relacionamentos e para a vida social.
Pesquisadores da Universidade College London, no Reino Unido, descobriram
que a tendência a achar que alguém está tentando nos prejudicar aumenta quando
interagimos com alguém que tem um status social mais elevado, ou quando o outro
tem crenças políticas muito diferentes das nossas.
O experimento, descrito no Royal Society Open Science, contou com
mais de 2.000 participantes. Cada um respondeu a questionários que envolviam
perguntas sobre status socioeconômico, crenças políticas e também traços de
personalidade. Depois, os indivíduos foram selecionados para interagir com um
parceiro com status parecido ou diferente.
As duplas participaram do "jogo do ditador", um tipo de teste
bastante usado por psicólogos e economistas em pesquisas sobre comportamento.
Um líder recebeu uma pequena parcela em dinheiro e teve que decidir se dividia
o valor com o parceiro ou fica com tudo, enquanto o outro tinha que justificar
a decisão tomada.
As pessoas que estavam com um parceiro que tinha status social mais
elevado ou crenças políticas divergentes foram mais propensas a achar que a
decisão tinha sido tomada para lhe causar danos, e não por interesse próprio.
Os pesquisadores perceberam que essa tendência se manteve mesmo entre os
participantes que não apresentavam traços paranoides.
Segundo os autores do estudo, os resultados podem ajudar a explicar como
a sensação de exclusão social pode alimentar o sintoma e os transtornos
associados a ele. Numa época em que a internet permite a interação com tanta
gente que pensa e vive de forma diferente, os dados também podem servir de alerta
para quem anda desconfiado além da conta.


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