Desafiando
estereótipos, muitas pessoas que frequentemente usam cannabis também parecem
ser aquelas que se exercitam frequentemente, de acordo com o primeiro grande
estudo sobre a maconha legal e os hábitos de exercício.
O estudo mostra que
muitas pessoas que relatam o uso de cannabis antes ou depois de um treino
acreditam que isso deixa o exercício mais agradável e que talvez os motive a se
exercitar. Poucos daqueles que se exercitam e usam maconha garantem que ela de
fato melhore seu desempenho físico.
Quando pensamos no
assunto, há muito preconceito sobre o estilo de vida do usuário de maconha. A
imagem que surge para muitos, muitas vezes formada a partir do Dude no filme
"O Grande Lebowski" ou das desventuras de Harold e Kumar, é do
maconheiro descontraído com seu bong.
"O estereótipo
usual é de alguém que passa horas no sofá, viajando e comendo Doritos",
diz Angela Bryan, professora de psicologia e neurociência da Universidade do
Colorado, em Boulder, que supervisionou o novo estudo.
Recentemente, a
possibilidade de que esse clichê pudesse estar certo começava a preocupar a ela
e a seus colegas. Seu laboratório estuda o comportamento de saúde e as ações e
decisões que tendem a promovê-la ou a reduzi-la.
Ela e seus colegas
perceberam que a legalização da cannabis recreativa, que tinha se realizado ou
estava prestes a se realizar em vários estados, incluindo o Colorado,
provavelmente faria o uso aumentar. Mas os regulamentos governamentais atuais
restringem a pesquisa com a droga, que permanece ilegal em âmbito federal.
Como resultado, pouco
se sabe sobre os possíveis efeitos do uso regular de cannabis nos
comportamentos que podem afetar a saúde, incluindo o exercício.
"Se o uso da
cannabis incentivar as pessoas a serem sedentárias e a comerem demais, isso
obviamente será uma preocupação", diz Bryan.
Mas ela e seus colegas
não tinham certeza de que esse cenário era verdadeiro, e procuraram descobrir
com seu novo estudo, que foi publicado no mês passado em "Frontiers in
Public Health".
Para isso, eles
primeiramente desenvolveram um questionário simples que fazia algumas perguntas
gerais às pessoas sobre si mesmas, incluindo sua idade, sexo, altura e peso. As
mais específicas se aprofundavam em suas relações com a maconha e a atividade
física.
O questionário sondou
quantas vezes as pessoas se exercitavam ou usavam cannabis, e se combinavam
essas atividades, usando a droga, sob qualquer forma, no intervalo de uma hora
antes ou quatro horas depois de um treino. Perguntou também se sentiam que o
uso de maconha deixava o treino mais prazeroso, se aumentava ou reduzia seu
desejo de praticar uma atividade física, e se possivelmente acelerava a
recuperação depois.
Em seguida, os
pesquisadores procuraram usuários de cannabis em vários estados onde a droga é
legal, incluindo Colorado, Califórnia, Washington e Oregon, recrutando os
participantes por meio de sites, dispensários e clínicas. Eles não os buscaram
em academias ou locais semelhantes, porque seu interesse era investigar como o
uso de cannabis afeta o exercício e não o contrário, diz Bryan.
Por fim, acabaram com
respostas de mais de 600 homens e mulheres que usavam cannabis, a maioria dos
quais disse também que se exercitava, pelo menos às vezes.
Os pesquisadores
esperavam que algumas dessas pessoas, mas provavelmente não a maioria,
relatassem o consumo de cannabis antes ou depois do exercício.
Mas estavam errados - e
por uma ampla margem. Descobriram que quase 82 por cento deles disseram usar
cannabis por volta do horário do treino.
Esse grupo tendia a ser
mais jovem, mais magro e frequentemente mais masculino que aqueles que não
usavam maconha em conjunto com o exercício. Eles também se exercitavam mais
frequentemente e usavam mais cannabis.
E cerca de 70 por cento
relataram que o uso de maconha aumentava seu prazer durante os treinos,
enquanto quase 80 por cento sentiam que a erva melhorava sua recuperação, e
mais da metade estava convencida de que o uso os motivava a ser fisicamente
ativos.
Porém apenas cerca de
35 por cento consideraram que ela realmente melhorava seu desempenho nos
exercícios.
Esses achados não devem
ser vistos como um endosso da maconha em associação com o exercício, diz Bryan.
Mas sugerem que algumas das nossas ideias arraigadas sobre cannabis e estilo de
vida podem estar ultrapassadas.
"Nossa preocupação
no início era que o uso de cannabis seria prejudicial para a atividade física.
Nossas evidências não sustentam essa ideia", diz Bryan.
Os resultados do novo
estudo são severamente limitados por serem autoavaliações de voluntários
autosselecionados que vivem em estados possivelmente não representativos,
acrescenta ela.
"Os estados que
legalizaram a cannabis também são aqueles notoriamente mais ativos
fisicamente", afirma ela. Se as pessoas em estados menos ativos
responderiam de forma semelhante à cannabis é algo incerto.
A pesquisa também não
diz como a cannabis afeta as pessoas durante o exercício, inclusive a
probabilidade de aumentar as lesões, a disposição de assumir riscos ou, como
algumas evidências indicam, a tendência de rir e de se distrair com o formato
das nuvens enquanto caminham depois de fumar.
Ele também não pode
explicar como a cannabis afeta a maneira de encarar o exercício, embora Bryan
suspeite que as mudanças na química cerebral, na sensibilidade à dor e à
inflamação estimuladas pela droga estejam provavelmente envolvidas.
Ela afirma que gostaria
de ver muito mais pesquisas sobre cannabis e exercício, mas o financiamento e a
aprovação para experimentos relevantes permanecem difíceis de obter, dada a
atual regulamentação federal.


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