FONTE: Richard A. Friedman, The New York Times (noticias.uol.com.br).
Quando é que vamos
tomar as rédeas do problema da depressão?
De todas as doenças graves,
físicas ou mentais, a depressão tem se mostrado uma das mais difíceis de
derrotar. Apesar da variedade de medicamentos antidepressivos – hoje há 26
deles – apenas um terço dos pacientes com depressão grave experimentam uma
remissão completa após a primeira rodada de tratamento, e tratamentos
sucessivos com medicamentos diferentes trazem algum alívio para apenas 20 a 25%
deles.
Cerca de 30% das
pessoas com depressão têm algum grau de resistência ao tratamento. E, quanto
maior o grau de resistência, maior será a probabilidade de uma recaída no
futuro, mesmo se o paciente continuar a tomar o medicamento.
Embora tenhamos
aprendido muito sobre a depressão – por exemplo, a recente pesquisa que mostra
que o sucesso do tratamento da insônia em pacientes deprimidos basicamente
duplica a sua reação a uma droga como o Prozac – ainda não entendemos qual é a
sua causa fundamental. A velha ideia de que a doença resulta da deficiência de
um único neurotransmissor como a serotonina ou a dopamina é claramente simplista
e equivocada.
Talvez psiquiatras e
neurocientistas tenham algo a aprender com a bem-sucedida caça ao bóson de
Higgs.
Claro que uma doença
debilitante não tem nada em comum com uma partícula subatômica, exceto o fato
de que ambas são misteriosas e difíceis de compreender. Entretanto, foram essas
qualidades que inspiraram equipes internacionais de cientistas a trabalhar
juntas por anos, até que finalmente identificaram o bóson de Higgs no ano
passado.
Cooperação.
Entre os cientistas
biomédicos que competem pelos mesmos dólares destinados à pesquisa e querem
passar primeiro pela linha de chegada de uma descoberta importante, esse tipo
de cooperação não é a regra. Porém, há sinais de que isso está mudando.
Não muito tempo
atrás, estive em uma reunião da Fundação de Pesquisa Esperança para a
Depressão. Audrey Gruss, a filantropa experiente e cheia de energia que criou a
fundação, reuniu um grupo de neurocientistas com formação geral e clínicos para
procurar soluções. (Não é a primeira a experimentar uma abordagem colaborativa;
outras estão sendo patrocinadas pela Fundação MacArthur e o Consórcio
Pritzker.)
"Um problema
complexo como a depressão vai muito além do que um único cientista ou
laboratório podem resolver", disse o líder do grupo na fundação Esperança,
Huda Akil, professor de Neurociências e Psiquiatria na Universidade de
Michigan. "O que é ótimo na nossa colaboração é que podemos pensar em
ideias ambiciosas e assumir riscos sem nos preocuparmos com o parecer das
agências de fomento", como o Instituto Nacional de Saúde Mental, a
principal fonte de financiamento federal da pesquisa psiquiátrica.
Um dos principais
objetivos da pesquisa é entender quais circuitos cerebrais e genes são
alterados pela depressão, como o ambiente interage com esses genes, e como reverter
as repetidas agressões biológicas da doença. Isso exigirá a integração de uma
ampla gama de ferramentas, conforme explicou ela: a genômica, a epigenética, a
eletrofisiologia, os modelos animais e a psiquiatria clínica.
A grande desvantagem
dos nossos antidepressivos atuais é que eles se baseiam em modelos animais que
têm sido usados há décadas para a produção de medicamentos que funcionam todos
da mesma forma. Novos medicamentos exigem a identificação de novos alvos no
cérebro e melhores modelos animais em que possam ser testados.
Levando isso em
conta, um dos membros do grupo, Joshua Gordon, professor associado de
psiquiatria na Universidade de Columbia, estuda novos modelos animais da
depressão por meio da gravação da atividade de regiões cerebrais em camundongos
selecionados que estão envolvidos em comportamentos que lembram a depressão.
Depois de conversar
com outra integrante do grupo, Helen S. Mayberg, neurocientista da Universidade
de Emory, Gordon modificou sua abordagem. Mayberg identificou um alvo para a
estimulação profunda do cérebro em pacientes com depressão que têm resistência
ao tratamento: uma região chamada córtex cingulado subgenual. Quando ela é
diretamente estimulada com eletrodos em pacientes deprimidos que não
conseguiram reagir a quase nenhum dos outros tratamentos, muitos deles mostram
uma resposta positiva bastante vívida.
Mayberg pediu que
Gordon ampliasse a região de gravação de modo a incluir o análogo da região do
cérebro humano no camundongo, para que se pudesse captar de maneira mais
abrangente a atividade dessas diferentes áreas do córtex e compreender como
elas contribuem individualmente para comportamentos que lembram a depressão
nesse animal.
Outro membro do
grupo, Bruce McEwen, neurocientista da Universidade Rockefeller, que realizou
um trabalho pioneiro sobre os efeitos do estresse sobre o cérebro, está
estudando ratos de laboratório de Akil que foram geneticamente selecionados por
sua propensão ao mostrar ansiedade e comportamentos que lembram a depressão.
Ação rápida.
Entre outras coisas,
McEwen está usando esses ratos para estudar a eficácia de medicamentos que têm
o potencial de agir rapidamente contra a depressão. Tais medicamentos seriam
uma grande bênção para a psiquiatria: precisamos de tratamentos que possam aliviar
os sintomas de depressão e o risco de suicídio que os acompanham em muito menos
tempo do que as duas a seis semanas de que todos os antidepressivos atuais
necessitam para surtir efeito.
Até mesmo uma
colaboração potente como essa não oferece nenhuma garantia de que serão
encontradas armas eficazes contra casos intratáveis de depressão. Afinal, foram
necessários 50 anos para que o bóson de Higgs fosse desmascarado, e mesmo
assim, há perguntas importantes sobre ele que ainda não tem resposta.
Ainda assim, em um
momento em que os fundos de pesquisa federais estão diminuindo e as principais
empresas farmacêuticas fecharam seus programas de pesquisa sobre o cérebro,
filantropos bem esclarecidos e empresários têm ajudado a abrir um novo caminho
promissor para a pesquisa em neurociência: a colaboração entre pesquisadores
dispostos e capazes de assumir riscos conscientes e resolver grandes problemas.
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